Mas o melhor do mundo são as crianças*

[Este post era pra 2ª-feira, mas por falta de tempo, só chegou hoje]

Há exatos 15 dias, a melhor semana da minha vida começou. Um amigo me pediu que o ajudasse a interpretar uns americanos em uma das congregações da minha igreja. Quando topei, tava toda animadinha, as coisas estavam boas e aceitei de bom grado. Quando chegou no domingo, quando eu deveria ter começado, estava eu em casa, bem debaixo do meu edredom vendo The Amazing Race. Então só fui na 2ª.

Não estava muito animada não, apesar de ser algo que eu gosto de fazer. O humor não era mais o mesmo, muitas coisas haviam se passado depois do convite… Enfim, tudo tinha realmente mudado, mas como me comprometi não quis deixá-lo na mão (apesar de ter feito isso com uma amiga minha e até hoje não ter dado satisfações).

Cheguei e enfrentei 11 americanos. Todos bastante educados e simpáticos, mas tava bem perdida no que seria aquele dia, a semana e achei sério que era uma canoa furada. E então, as crianças foram chegando. Por algum motivo, eu só soube que eram com crianças que os dudes trabalhariam quando cheguei lá. E tinha pra tudo que era gosto, tipo, faixa etária, etc. E o primeiro dia correu bem, apesar de muita insegurança, muita informação e muito inglês carregado de sotaque pra me desafiar. Voltei pra casa morta. Podre. Um caco.

As coisas foram piorando e melhorando conforme a semana passou. Mais crianças apareceram, mais intimidade eu tive com os estranhos – 99% das pessoas – e mais habilidade em driblar crianças mais espertas do que eu e com 20 anos a menos também.

Teve um momento que achei que não aguentaria mais. No meio da semana, fiquei absolutamente sozinha com cerca de 30 crianças, de 4 a 12, 13 anos e o bando americano. Crianças que não me conheciam e não faziam muita questão de me obedecer, ou eram extremamente carentes e me queriam só para elas, adicionado aos americanos que dependiam de mim pra absolutamente tudo porque deles só saíam: ‘bom dia’, ‘boa tarde’, ‘obrigada’. No máximo conseguiam as palavras que decoravam pra falar às crianças e os nomes do pessoal que tava lá. O meu nome até o último dia não saiu direito, hehehe!

Naquele dia pensei que surtaria de tanta estafa mental e emocional, sabendo que mesmo que eu quisesse, não podia deixar de estar ali e também que era só mais um dia. Voltei pra casa andando. Cerca de 4 km depois de 3 horas de atividade e 2 horinhas de aula pela manhã.

Como intimidade é uma merda, conforme a semana passou as crianças ‘abusavam’ da minha boa vontade, mas vê-las aprendendo e cheia de curiosidade naqueles olhinhos, querendo aprender a falar qualquer palavra naquela língua estranha a eles, me dava uma alegria e satisfação que compensava o cansaço. E foi assim até o último dia.

Esse sim – o último dia –  foi desafiante. Nunca tinha chegado a sentir verdadeiro desespero por pura falta de controle da situação. Não estava sozinha, mas o número de crianças era quase o dobro dos outros dias, por conta do feriado.

Minhas energias foram zeradas. Mas no final do dia, toda uma emoção. Os menores vieram me abraçar, pediam pra que não fôssemos embora – já que além dos americanos, eu não era de lá – e ainda teve uma que me abraçou tão forte e soluçava tanto… A essa altura eu já tava cansada de chorar… e cansaço, de emoção e de deixar aquilo tudo, aqueles pequenos que, com muito pouco, criei um vínculo emocional muito forte.

Teve uma pequena, em especial, que me deu muito trabalho. Era uma das mais bonitas, graciosas, mas com tantos problemas que eu realmente não consigo imaginar. Eu cuidei muito dela. E depois que a semana passou percebi que me liguei à ela mais do que com outras porque naquela idade eu me sentia como ela se sente; e muitos me tratavam como ela era tratada. E os choros, às vezes por bobeira, mas muitas vezes com motivo, eram os choros meus de 20 anos atrás.

A última coisa que fiz foi me despedir, com muita lágrima no rosto, dos americanos, que me receberam muito bem, elogiavam meu inglês quase sem sotaque, meu trato com crianças e ainda ousaram dizer que o que fiz ali era verdadeiramente de coração, que eu tinha dom pr’aquilo. Ainda não analisei a fundo essa questão. Mas queria contar que tive a semana mais esplêndida por conta de coisas até bem simples.

E hoje, retiro minhas palavras repetidas tantas vezes há alguns anos atrás pra dizer que, trabalhar com crianças, pessoas puras, de coração aberto, interessados naquilo que você tem a oferecer, com um sorriso pronto mesmo quando fazem besteira, que não tem medo de dizer que não sabe e ainda perguntam como se faz, que quando abraça, é sincero e, mesmo quando a gente acha que não, eles ouvem o que dissemos, mesmo que seja algo ruim.

E a cada dia que passa meu desejo por filhos aumenta; meu desejo em adotar aumenta. E acho que quando conseguir a minha família, com meus pequenos, serei realizada e viverei feliz, porque, de fato, criança traz felicidade.


*trecho de ‘Liberdade‘ de Fernando Pessoa.

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