Cold Water*…

A gente nunca sabe como vai ser o dia, quando acordamos. Tipo… O máximo que dá pra saber é que temos uma lista de obrigações, deveres, prazeres, compromissos a serem cumpridos. E não quer dizer também que os cumpramos.
Minha mãe sempre foi muito responsável e tentou passar isso pra mim. E enquanto ela ‘comandava’ minha vida, eu ia a tudo e todos os lugares e compromissos marcados. Ou mesmo idas ao Jardim Botânico com a turma do colégio em dia de chuva. Ela é do tipo que me fazia ir pro colégio no dia do aniversário. Ou mesmo nossas idas ao Barra Shopping todo santo domingo.
Aí a gente cresce e quer ditar nossas próprias regras. Porque eu era um tanto rebelde – na visão dela; pra muitos eu era um anjo – e matava aula, ‘assassinava’ explicadora, não mantinha minhas notas num nível digno de uma filha de professora. Era meio rebelde mesmo.
Depois que passei da fase de roupas pretas 90% do tempo, resolvi que ia ser adulta, ter responsabilidades e fui estudar. Mas lá todo mundo queria mesmo era qq outra coisa. Então no ano seguinte fui trabalhar, ter meu dinheiro, ser alguma coisa pro mundo. E nesse tempo todo, desde cedo mesmo,  fiz aulas de música, de piano, violinho, estudei inglês, aos 9 anos já cantava num coro e com isso tudo a gente aprende que tem que se obedecer regras de sociedade, ser responsáveis pelo que nos comprometemos e tudo o mais.
Acabei fazendo uma faculdade que, se não fosse intenção minha sobreviver,  a ela, poderia não fazer absolutamente nada. Mas desde o 1º período só escutava que “advogado não perde prazo”. E isso faz o quê? Coloca uma puta responsabilidade nas costas de quem só quer ajudar o outro (Direito é isso pra mim, estender a mão, a um ‘módico’ valor, a quem necessita).
E não é só isso. A gente passa a vida se comprometendo, se responsabilizando; é fazer um churrasco, marcar um reencontro, ligar pra um amigo, terminar um livro, ajudar a mãe na cozinha, tratar da pele, começar dieta… Tudo isso nos compromete, especialmente com nós mesmos.

Hoje vivo dias de uma ‘outcast’. Não porque eu queira do fundo da alma. Mas por estar numa situação tal que não consigo mover-me. Meu coração dispara, sinto tremores pelo corpo, calafrios, hiperventilo… evito até falar com pessoas. Porque eu simplesmente não sou fiel àquilo que me coloco à disposição ou a que me suponho.
Vivo num mundo meu, onde furar com alguém, não ligar pra quem devia, não terminar um livro, não começar uma dieta, não fazer as coisas que me dão prazer, não dar satisfações por deixar alguém na mão, não têm conseqüências pros outros. Mas pra mim, tem um peso gigantesco. Porque depois de um tempo, as pessoas que um dia contaram com você, esquecem, deixam pra lá. Mas eu não; remôo tudo o que tenho deixado pra trás, num sofrimento tão sofrível quando a dor do parto (pelo que dizem é terrível) por não ser mais alguém com quem se possa contar.
Seja pra cantar, pra fazer uma caminhada, pra telefonar e perguntar se está tudo bem. Até mesmo pra viajar, encontrar uma velha amiga. Eu me esquivo. Eu fujo. Finjo não conhecer conhecidos pelas ruas.
Infelizmente só não consigo fingir, nem fugir das conseqüências disso tudo, minha frustração, minha tristeza de ver meus anos serem jogados no lixo. De me ver parada vendo o mundo rodar e não pegar carona.

Não, não estou bem. Comigo, com o mundo, com ninguém. Eu forço sorrisos e tento convivência mas isso me incomoda. Conviver. Requer compromisso nem a acordar eu tenho me comprometido.
Se tem algo comprometido é meu futuro; por ele, nada faço e quanto menos se faz mais trágico você imagina o encaminhar dos anos. E apesar disso, apesar de precisar, eu não consigo. Apesar de querer cantar, eu não consigo. Apesar de querer ligar pra quem devia, não o faço. Quero reencontrar tanta gente, que até me cobra por isso, mas algo dentro de mim é muito mais forte do que qualquer saudade.

E vai queimando
Vai ardendo
Destruindo
Aniquilando
Vaporizando…
…Tudo que um dia eu fui. E o pior é ter a sensação de nunca mais ser a mesma que cantava por prazer, que ia à terapia por saúde, que tinha amigos por amor. Que corria atrás até de quem fugia de mim.

Passei da auto-sabotagem pra auto-destruição (enfia a reforma ortográfica onde vc quiser, by the way). Daqui não sei aonde posso chegar, mas não tenho boas previsões.

Isso não é um relato de auto-piedade. Mas a minha vida. Cada dia ando mais aberta nesse canto que finjo que ninguém lê, porque é com quem consigo falar. Com ninguém e com todo mundo, pelo visto. Internet é isso, o mundo todo.
E mesmo com um mundo todo ao meu redor, dos conhecidos aos desconhecidos, dos virtuais e dos de carne e osso, passei do estado de me sentir só. O que sinto não tem palavra e não me comprometo a procurá-la.
E vou dormir. E torcer pra ter sonhos bons, de momentos melhores, de um alguém melhor do que quem digita essas linhas; torcer pra Deus fazer o que acha que deve fazer comigo, com minha vida. Não me comprometo a fazer o que realmente gostaria. É tudo auto-destrutivo e disso, já basta o meu pensar de todos os momentos.

Se eu voltar a ser alguém que era legal estar perto, sem ficar divididndo tristezas e agonias ou reclamando da vida; se eu nutrir minhas amizades de forma saudável e sincera; se eu parar de fazer certas coisas que só acabam com o corpo que ainda me resta; se eu voltar a ter prazer em cantar; em falar inglês… Se eu voltar a querer, verdadeiramente viver, vai ser o melhor momento dos últimos que tenho vivido. E de coração, eu bem que queria, simplesmente não consigo.

Viver é muito mais que acordar no dia seguinte. Viver é muito e tem sido demais pra mim.

Cold Water

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