É Preciso Saber Viver…

“É preciso ter cuidado, pra mais tarde não sofrer. É preciso saber viver.”

Essa música é linda. Aliás, como já disse algumas vezes, as músicas do Roberto Carlos são muito boas, se não fosse ele cantando.

Mas não é por causa do Roberto Carlos que eu resolvi escrever. É por causa do “é preciso saber viver”. Eu não sei. Não que eu não viva, dã. Mas eu não vivo. Eu respiro, ando, como, tomo banho, faço tudo que todo mundo faz. Mas não faço tudo que todo mundo faz. Umas coisas não faço por questões óbvias, morais e éticas. Mas não faço o que uma pessoa normal faria, não aproveito a idade e a vida que tenho.

Semana passada, entre milhões de dilemas que estava passando, me meti em outros dilemas totalmente dispensáveis por conta dessa minha falta de habilidade em viver. Demorei maus de uma hora pra perceber que eu não precisava analisar tantos prós e contras pra sair numa sexta-feira à noite.

Eu analiso tudo. Até se vale a pena colocar o pé na rua porque talvez chova e eu não tenho pretensão de levar guarda-chuva. Eu analiso o que pode vir a acontecer se outra coisa vier acontecer no meio. E analiso mais ainda se vale ou não ir ou não, com quem eu vá ou não, se eu for. Ou não.

Simplesmente não sei acordar, olhar pro céu, colocar uma lista de coisas pra fazer no bolso e lidar com as conseqüências dos imprevistos se estes existirem. Mas simplesmente não sei.

Engraçado é que sempre fui assim. Desde quando me lembro ser um ser pensante. Lembro que minha 2ª picada de abelha (foram 3 na infância e 1 este ano que quase me arrancou o braço), ainda com uns 8 anos, eu tinha pensado se valia a pena ir pra piscina, onde todos estavam porque sabia que havia abelhas na borda e poderia ser picada. Ou não. Acabei indo. E sendo picada. Talvez a minha preocupação com tudo que eu tinha previsto tenha levado a bendita abelha ao encontro das minhas coxas – gostosas na época – para um ultimo ato em vida.

Nesta semana que passou, por muito tempo fiquei criando situações e problemáticas inexistentes pra justificar meu medo de sair (coisa que na verdade é outro assunto e renderia muito). Minha amiga, sabe-se lá como ou porquê, tentava me mostrar o quão absurda eram minhas teorias, sobre coisas que não faziam o menor sentido. E que se eu fosse parar pra pensar em tudo, tudo mesmo, não sairia de casa, porque não tenho certeza de que voltarei. Confesso que nessa hora quase congelei e pensei seriamente no assunto, hehehe!

Se não fosse ela me mostrando tudo isso, não teria ido a um lugar perfeito, tido uma noite perfeita, com pessoas ótimas, conhecido outras pessoas ótimas, me divertido muito, vivenciado um momento louco tipo cena de filme… Não teria nem ganhado uma maçã da feirante às 4:30 da manhã enquanto uma amiga fazia xixi atrás de outra barraca. Nada disso teria acontecido se eu tivesse levado à cabo todas as minhas neuras e loucas indagações.

A mesma coisa são meus casos amorosos. Vai fazer 1 ano que conheci uma pessoa. Saímos poucas vezes e da última vez pra cá, como não podia deixar de ser, comecei a indagar se valia a pena ‘gastar meu tempo’ tentando descobrir se essa relação, seja lá o que ela for, vale a pena. Por que não deixar as coisas acontecerem? Por que ficar me perguntando se vai ou não dar certo? Por que não curtir aquele momento, que normalmente é tão bom? Mas essa coisa de “e se…”, “mas e se não…”, “mas e se sim…” Eu consigo me achar irritante, mas não consigo não ser assim.

Eu estava na minha sessão e terapia, local que não ia há uns 3 meses e no meio da sessão escuto exatamente tudo que minha amiga havia me dito. E só me disse a coisa mais óbvia: “Por que você simplesmente não vive? Não deixa as coisas fluírem?” E eu não tive resposta, porque até pra isso eu paro pra pensar como é essa coisa de deixar a vida me levar.

Se resolvo ler um livro penso se vale a pena ou não começar por conta do tempo, se eu vou ou não gostar da história, se vou demorar pra terminar, se tem outros que poderiam ser mais interessantes.. Ninguém que chega nesse ponto é normal.

Estou num sábado à noite, me chamaram pra sair e mesmo sem dinheiro iriam me bancar. Quem recusa? Eu. Porque aí fico pensando se acontecer algo no meio do caminho, se vale a pena reencontrar pessoas loucas.

Estou no meio de uma nova crise. Porque sempre tenho muitas e apesar de ser mulher e todas serem neuróticas, eu consigo ser pior que a vasta maioria delas. Eu preciso de instruções pra viver, o que é a coisa mais absurda que um ser humano comum posa falar. Mas eu não sei viver. E quanto mais o tempo passa, mais penso no quanto tanto pensamento tem me levado a lugar nenhum.

E ao invés de tocar a vida, fazer tudo o que devo – e até o que não devo – fico sentada analisando a situação em que me encontro.

Aí, voltando ao trecho da música, é preciso mesmo ter cuidado. Mas eu tenho cuidado demais. Cuidado tipo mãe coruja que não deixa o filho ir pra praia sem tudo quanto é apetrecho de segurança e bloqueadores solares.

Isso não é vida. Mas não sei viver de outra maneira, por mais que eu realmente queira abraçar o mundo com meus braços gordeenhos e deixar o que tiver que acontecer, acontecer. Sem listas de prós, contras ou qualquer coisa do tipo. Pode ser que um dia eu aprenda. Pode ser que daqui a uma década eu leia tudo isso e diga a mim mesma: “Tá vendo? Eu te falei que era isso que ia acontecer”.

É e fato, preciso saber viver. Ou então perde-se os melhores anos da vida. E destes já perdi alguns.

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