Ser, não sendo…

Cada dia que passa eu me sinto pior como ser humano. A cada dia que passa, eu canso de mim mesma e desejo simplesmente não existir mais. E o engraçado é que eu tento ser o melhor de mim e simplesmente falho a cada tentativa, no mínimo, por pura incapacidade de ser algo melhor do que a medíocre eu que sempre fui.

Não é conformismo e sim constatação. E engraçado é que sempre me senti medíocre como ser humano. Desses últimos não tão benditos dois anos que estou vivendo a mediocridade seria um puta elogio. Chegar à infeliz conclusão de que não ser feito pra viver não é pra qualquer um; só pra privilegiados, aqueles que nunca tiveram nada de realmente bom pra contar ou pra fazer; que nunca foram exemplares em algo; que nunca deram orgulho a ninguém; que nunca foram admirados por nada; que não fazem nada pra ninguém e nem pra si mesmos.

Há quem leia isso e simplesmente diga que eu tenho que agradecer a Deus por ter ‘saúde’ – remédios controlados e psiquiatra aos vinte e poucos anos não é lá o que chamaria de ser saudável –, um teto, familiares que aparentemente me toleram e amigos que, por algum milagre ou sentimento de pena, ainda querem ter contato comigo. Mas sabe de uma coisa? É uma grande palhaçada. É ser mais medíocre do que os próprios medíocres, se contentar com a mediocridade de simplesmente SER. Convenhamos… quando ainda pequenos e nos perguntavam o que gostaríamos de ser quando crescêssemos, por mais simples ou banal que fosse a profissão na visão do ouvinte, desejávamos que aquilo fosse ser importante pra alguém. Todo mundo, de certa forma, procura o sucesso. E esse sucesso não está simplesmente relacionado com profissão ou com notoriedade. É sucesso em SER. Então, como achar que só o fato de respirar e ter pernas funcionais, olhos que enxergam, braços que se movem e voz pra reclamar são suficientes? Não digo que não sou grata pelo que sou e tenho, mas insatisfação faz parte. E no meu caso, grande parte da minha vida e de tudo que me envolvo é simplesmente podre, dispensável, numa linha abaixo da mediocridade. Medíocre pra mim é sinônimo de sucesso, hoje. Parece um abalroado de palavras ridículas e melodramáticas, mas é a mais pura sensação que aflige meu ser a cada processo de inspirar e expirar.

Meus dias são assim: eu acordo e me pergunto: “Por que mais um dia?” E vou fazer o que devo; coisas banais e tudo que vem aparecendo no caminho. No final do dia, inevitavelmente, eu acabo decepcionando alguém. Ou aborrecendo. Ou deixando na mão. Eu sou daquelas pessoas que você NÃO pode contar. E não é que eu não queira ser diferente, mas como já disse, por mais que eu tente, nunca consigo sair disso que sou. Estou exagerando? Não. Sendo bem flexível, dia sim dia não, algo de mim, enche, aborrece, entristece, estressa alguém além de mim.

Eu mesma já estou de saco cheio. E Deus sabe disso. E aí fico me perguntando cadê Ele que permite me viver dessa forma. Me leve daqui, ou me tire desse fundo de poço que parece cada vez mais longe da saída.

Dia como esse que tive hoje são um morde-assopra. Fazem parte daqueles que você acha que vai dar certo, e que nada está tão péssimo, só ruim e às vezes até razoavelmente bom… Mas no final tem um twist e tudo vira merda, tipo um Midas às avessas do século XXI(whatever, joga no Google).

Eu sou completamente desajustada e todos os meus anseios e vontades são banidos por mim, pelos outros e pela sociedade. Tudo aquilo que me daria prazer é completamente limado da minha vida. E a cada dia, a cada tentativa de ser melhor, eu consigo piorar e deixar pessoas na mão, criar falsas expectativas. Tento controlar minha ansiedade, minha óbvia depressão e minha personalidade forte pra que não seja tão ruim quanto pensam, calo-me quando minha vontade é jogar merda no ventilador e faço um grande exercício de pensar em coisas boas, tipo algodão doce, Gerard Butler, chá de morango. Até sub-emprego estou à procura. E aceitando propostas que, sinceramente, por pior que eu seja, está muito abaixo daquilo que eu sei que seria justo pra mim. Só pra tentar viver, tentar não ser tão ruim aos olhos dos outros, tentar ser útil mesmo que de forma cu, tentar chegar em algum lugar.

Porque o pior é chegar onde estou: vendo todo mundo resolvendo resolver a própria vida, acordando e cantando “Morning’s Here”, olhando pro céu e vendo que aquela manhã é o novo começo de novas tentativas e antigas pendências e eu acordando sem querer acordar, falando sem querer falar, convivendo sem capacidade para tal e vivendo sem a menor vontade de viver.

Eu reclamo muito? Talvez.

Mas primeiro, antes de falar, troque de lugar comigo por uma semana. Fique sendo eu, tendo que lembrar de remédios essenciais – e não vitaminas bacaninhas para o corpo – de todo dia, se preocupar com uma cólica ou dor de cabeça e que com outros remédios só acumulam, piorando uma dor de estômago que cultivo há certo tempo. E sinceramente nem quero procurar saber o que é porque não quero mais remédios.

Fique no meu lugar e passe o dia sem motivação pra levantar e fazer as atividades normais, como tomar café, tomar banho, arrumar um armário, ler um livro.

Passe uma semana na minha pele e sinta falta de vontade – não só preguiça por si só – de viver; ter que sorrir quando se quer chorar: sorriso falso é mais aceito do que um choro sincero. Viver com repreensões ‘surpresa’ sobre coisas banais, mas que tem um efeito catastrófico sobre quem sou hoje. Não ter vontade e até sentir repulsa em estudar, mesmo sabendo que aquilo ali é a porta da esperança para dias melhores, liberdade, realizações, um passo largo a frente, uma injeção de esperança, de futuro garantido…

E, como disse a uma amiga esta semana que passou: “no que me apoiar?” Cadê aquele ponto positivo que todo mundo tem na vida pra achar que outras áreas podem rolar, melhorar, chegar a algum lugar? Não consigo melhorar dessa maldita doença; pelo contrário, estou me tornando tudo que sempre critiquei. Não tenho alguém que me ame e, sinceramente, não vou  ou mereço ter esse alguém; porque ninguém gosta de gente mau humorada ou triste ou chorosa, ou que nem levante da cama. E pior, sem auto-estima. Não tenho como exercer minha profissão, que por mais árduo que seja o mercado de trabalho, eu estava disposta a tentar, mas eu não tenho carteira. Mesmo tendo tentado com tudo que tinha e como pude. Pessoas que se formaram depois de mim já têm, mas eu não. E como não se sentir inferior?

Não posso ou mesmo consigo, encarar outra faculdade neste momento. O que quero requer de mim um conhecimento que não tenho mais, que demoraria certo tempo e despenderia dinheiro para consegui-lo. Mas não tenho emprego e nem 17 anos pra achar normal pedir pra família bancar. Esta que deveria ser minha base, meu ponto de apoio, é a raiz de muitos aborrecimentos e acaba sendo fruto de tristezas pra todas as partes envolvidas.

Como já disse, concursos requerem estudo e simplesmente falta-me forçar para tal.

Minha última – e ironicamente a primeira – opção, seria viajar. Ver outras coisas, viver novas experiências. Mas pras condições financeiras da minha família atualmente, isto seria um luxo que não se pode bancar. Pelo menos até onde eu saiba. O único lugar pra onde poderia viajar é onde realmente poderia me jogar pela janela sem pensar duas vezes.

Minha vida não é fácil. E não digo que todos têm vidas fáceis. Mas as pessoas se realizam de alguma forma. Seja conquistando algo que querem, ou tendo um suporte familiar ou de um alguém especial; a realização da profissão dos seus sonhos; ou mesmo o exercício daquilo que foi estudado na fase mais marcante da nossa vida. Algumas das coisas que me dariam certo prazer ou estão financeiramente inviáveis ou eu simplesmente não tenho condições de usufruir por tudo que sou hoje. Não sou confiável, não consigo ser responsável. Se com momentos de lazer eu deixo pessoas na mão, em situações que requerem compromisso, não posso mais fazê-lo com a certeza de que estarei 100% capaz de verdadeiramente me comprometer. E não é por não querer, é por simplesmente não conseguir, repito. Vivo com uma força negativa muito mais forte do que eu gostaria que fosse; com um (sub)consciente muito mais doente que o da maioria; com uma esperança que não existe. Eu finjo ou tento me convencer de que esta ainda tenho, mas a cada dia, a cada tropeço dos vários que tenho diariamente, é como se fosse um estalo me dizendo pra acordar, porque dias melhores só em sonhos mesmo.

E, quando eu era nova, meus sonhos eram o que me faziam acordar todo dia. Hoje, só acordo porque o sono acaba. Os sonhos? Estes já acabaram. E a mim resta ser do jeito que sou; e não SER como todos os outros estão e/ou pior, que esperam de mim.

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2 comentários em “Ser, não sendo…

  1. nossa, foi incrível, porque me identifiquei profudmente com este texto. parece q era eu quem estava escrevendo o texto. vc não está so neste quesito.

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