Alterego

Completar 25 anos não estava nos planos dela. Nunca imaginava que em algum momento continuaria respirando e vivendo por tanto tempo.Ela sabia – e como sabia – que era uma dádiva e deveria aproveitar a chance que Deus tinha dado.
Enquanto pensava o quanto tantos anos pesam, ficou a imaginar se realmente merecia tanto.
Não é todo dia que uma pessoa tão jovem conseguia nutrir sentimento de repulsa por si mesmo; nunca, na cabeça dela, alguém dessa idade passaria tanto tempo tomando remédios controlados. Muito menos que precisasse disso.
Aos 25 anos ela achava que já teria conquistado alguma coisa que estivesse em seu caderninho de realizações. Mas nada daquilo aconteceu.
Pra ela, uma menina cheia de sonhos e (des)ilusões, viver tinha se tornado uma obrigação, das mais chatas. Acordar cedo, estudar, trabalhar…. Nada daquilo a agradava.
O futuro, ali na frente, a todo o momento e a cada segundo, era sempre uma incógnita. A falta de personalidade, a falta de vontade, talvez, a fazia duvidar de todas as decisões que tomava. Nada durava tanto tempo quanto deveria. A persistência em sua vida só se mostrava nas horas de sono que, com prazer, dormia.
Sorte? Nunca teve. Se achava a mais azarada dos seres. Via na criação de Deus uma grande brincadeira de mau gosto: colocou-se tudo de esquisito, de rejeitável, de dúbio, de ruim e de razoável. Só queria mesmo era ganhar um bingo, ou mesmo um sorteio. Ou ter entrado na fila da beleza alguma vez….
A família era interessante. Cheia de padrões, de estigmas, de preconceitos.
E ela, fatalmente, não se encaixava. Não entendia a rejeição pelo Rock, pela noite, pelos chás, pela noite, pela sinuca. E a falta de aceitação a incomodava. E a consumia. E a tornava cada vez menor como aquela que ela se tornara.
Não a agradava ser tão forçosamente dependente de sua família, de ter tão pouca voz sobre as coisas que eram importantes pra ela – uma impotência sem fim – pensava…
Seu sonho era fazer o que o coração mandar e o que a vontade deixar, sem culpa.
Romance? Ah! Nada de romances pra esta mocinha. A sorte não batia no coração também. A tal “sorte no jogo, azar no amor” funcionava bastante. E com 25 anos ela sonhava já ter se resolvido. Quando criança jurava que já teria sua casa no campo e seu marido e seu filho. Ou mesmo estaria morando sozinha, com seus 8 gatos, como literalmente sonhou na infância.
Hoje, aos 25 anos ela só sonha com paz. Com independência. Com felicidade. Os sonhos se tornaram tão pequenos, tão simples. O que ela mais quer é o básico. É o essencial. O mínimo pra se viver.
Mas ainda se permite sonhar os sonhos não tão simples, mas aqueles que todos sonham também. Sonhos de amor, de segurança, de sucesso profissional. A rejeição da vida tinha um gosto amargo, mas a bondade de seu coração persistia em desejar tudo isso e mais um pouco.
E hoje, ao completar ¼ de século, a esperança bate a porta e se renova, para mais 25 anos que se seguem. E, como criança que um dia foi, não imagina o que pode vir, sequer imagina que podem vir mais 25 anos. E essa criança que ainda existe nela, só deseja o melhor e o pior. Deseja o ruim e o bom. Deseja 25 anos melhores vividos.

Post Scriptum: esse post é ligação direta com este: http://wp.me/p4oe1-G

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