Agradável. Trabalhamos.

Sabe um grande problema? Eu sou adorável. Posso não ser bonita, nem inteligente, nem bem-sucedida. Mas eu sou adorável. E Deus, como isso é chato. Ser adorável não é mesmo a melhor das qualidades. Parece arrogância, mas é verdade. E é sabido que não tenho grande estima de mim mesma. É a verdade.
Minha personalidade é forte, e eu venho tentando esconder, ou mudar alguns traços que não agradam nem a mim, ando bem menos ríspida e me tornando cada vez mais adorável. Que merda.
Óbvio que ser bem quista é ótimo, mas ultimamente não tenho tido nenhum ganho com isso. Elogios e tals. Mas elogios não pagam contas, não emagrece, tampouco te arranjam um namorado. Porque eu também sou adorável pros homens. Os que se dão ao trabalho árduo de conseguir me conhecer e ter um mínimo de intimidade – porque mesmo adorável, tenho me visto cada vez mais fechada pro mundo – vêem que assim sou.
Daí a vida se torna chata. Ser adorável hoje é o ‘você é muito figura’, que escutei durante alguns vários anos durante a adolescência. Era ‘figura’ porque era ranzinza demais. Hoje ainda sou, mas em doses controladas. Era a ‘figura’ que arranjava namorado pra todos, que engolia sapos e era preterida.

Hoje eu sou adorável. Não arranjo mais namorado pra ninguém porque na minha idade todos estão tendo filhos e meus amigos solteiros se conhecem e não se querem.  Continuo engolindo sapos. Continuo relevando coisas que pra muitos são intoleráveis. Sigo sendo culpada por atitudes equivocadas e informações mal dadas. Mas eu sempre arranjo uma desculpa por me culparem, por tolerar o intragável, por calar-me quando deveria mesmo era jogar a merda toda no ventilador

Tornei-me adorável, porém muito menos expansiva, com muito menos vontade de conhecer gente nova e desbravar o mundo.  Desenvolvi uma grande dificuldade em ver como o mundo funciona fora dos locais de trabalho, estudo e casa, não tem porque me chamarem pra seja lá o que for. Não tenho muito mais amigos pra isso e conhecer gente, invariavelmente, necessita que eu passe por esse processo. E então continuo preterida.  

Adoravelmente engraçada quando meu nível de humor está alto; adoravelmente ranzinza em dias ruins. Não me esforço muito mais pra que continuem gostando de mim. Pelas minhas contas, tem pelo menos meia dúzia de pessoas que não me acham nada. Um dia achavam; hoje, tem mais o que fazer e em suas to do list não eu me encontro.

Isso tudo frustra muito. Não porque seja ruim, mas te colocam em patamares estranhos. Adorável num dia não pode estar mal-humorada no outro. “Tomou seu remédio hoje?”, é o que acabam me perguntando. Adorável, engraçada, divertida, irônica. Seja lá como me classifiquem, não sei se é isso que quero que pensem.

Guardar todas as raivas, respostas, vontades dentro de mim não tem me feito bem, não faz bem a ninguém e não tem antidepressivo que resolva isso. Terapia, talvez. Mas agora não dá. E ser essa pessoa supostamente agradável pros outros – e ultimamente até minha mãe tem achado, pasmem! – cansa.

Preciso de um diazinho de fúria, voltar pro meu eu do passado, entre meu tempo “muito figura” e o “adorável”, dar meia dúzia de foras, ser grossa e por aí vai. Nessa época, eu pelo menos curtia viver a vida um pouco mais intensamente, e conhecer pessoas que acabassem gostando de mim era um desafio. Agora nem pessoas conheço.

As coisas tão boas, tá até tudo bem. Mas nem tanto assim.

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