Eu, um elefante. A vida? Um guepardo

Eu não dei certo.

Eu poderia dizer que sou nova e que as coisas vão mudar, mas não carrego mais esperanças.

Fiz 30 anos. Estou me cuidando. Mente, pele, corpo. E tudo continua na mesma. Continuo sendo a amiga que faz os programas das amigas enquanto os respectivos estão em casa. Continuo sendo a amiga que fica feliz – genuinamente – com o sucesso alheio mas não desfruta isso na própria vida. Continuo sendo a amiga que vai às festinhas dos filhos das amigas como a amiga avulsa e que todas as pessoas olham estranho porque não tem nem marido e nem filho.

Tem gente que lida bem. E eu estava lidando como ninguém, porque meus remédios são ótimos em tirar aquele desejo básico de querer me matar e também tiram qualquer sensação que saia da linearidade.

Estava tudo bem até a consulta com a psiquiatra em que ela questionou meu emprego e o fato de eu ganhar mal. Na hora justifiquei dizendo que tava cagando porque estava bem. E foi a mesma coisa que disse há 2 dias, quando conversei com a minha amiga.

Até que fui celebrar a vitória de uma amiga.
Até que fui, novamente, na festinha do filho de outra amiga.
Até que continuei sendo a companhia da minha amiga e dos filhos dela.

Nada mal em nada disso. Não fosse o fato de que eu não tenho nada. E nem todos os sonhos do mundo. Porque eu não sentia nada. Eu não me sentia mal por estar num péssimo relacionamento com minha mãe, numa péssima posição na empresa e um péssimo emprego, e por continuar não tendo absolutamente nada no que se refere ao amor.

Desde a consulta, culminando nas celebrações do fim de semana que começaram na sexta-feira, que tudo tem despertado minhas insatisfações. Finalizou com a conversa com minha amiga-irmã.

São 30 anos. E eu saí da faculdade há 6 anos. Nada mudou. Pelo menos não pra melhor. Minha depressão piorou – tudo bem porque foi por falta de tratamento e agora está tudo ok. Não tenho carreira; tentei aqui e ali e continuo na merda. Não tenho uma vida sentimental saudável. Não tenho vida sentimental, na verdade.
Desculpa, isso não é saudável. Não tem como manter a sanidade.

Já chorei. Já pensei no que posso mudar mas também não sei. Tem coisas que não sei. Acredito que fui criada numa família onde a mediocridade basta. Não to culpando ninguém, veja bem, apenas constatando. E estou, talvez, acreditando que viverei na mediocridade. Infeliz. Sempre celebrando a vida alheia. Sempre a amiga que está ali pra sorrir e festejar e ver que tá todo mundo bem. Mas que nunca estará bem.

Antes que alguém ache que pensar de forma negativa atrai, eu não estou PENSANDO, estou VIVENDO e aí que mora o problema. Não tem muito pra onde fugir. Fugir pra onde? Pro emprego na Índia que me candidatei e não tive resposta? Pra alguma loucura que eu acabo nunca tendo coragem de me jogar?

Não sei como vai ser esta semana.
Não sei como vou lidar com meu emprego. Uma reles nada, que faz trabalhos de tradução sem saber se sou de fato reconhecida – porque dinheiro que é bom não vem -, que espera sempre que as coisas podem melhorar já que a chefe diz que sou inteligente e tenho cultura e outras coisas. Mas continuo sendo aquela ali no canto. Engraçado, né.

Não sei até quando vou lidar com as amigas saindo comigo nos encontros das amigas, já que não tenho namorado pra sair de casal; até quando vou deixar de conhecer restaurantes bacanas, lugares que gostaria de ir com alguém bacana, porque não tenho alguém. Bacana.

Não sei até quando remédios que me tiram a vontade de me matar e consequentemente todas as sensações de um ser humano normal em 90% do tempo vai ser o que quero pra mim. Talvez seja melhor querer morrer e sentir e talvez até morrer.

Só espero que o destino me reserve outras coisas além da rebeldia e que eu não chegue a tanto e não jogue, mais uma vez, minha saúde pro alto. Pelo visto é a única coisa que ainda tenho. E não, ter “saúde e paz que o a gente corre atrás” ou qualquer que seja o clichê, não é verdade. Se a vida é um guepardo e você um elefante, não tem corrida que chegue.

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