I’ll Be Fine

Segunda-feira. 20:01.
Casa de mãe.

Eu saí. Ou estou saindo. O que vim desejando desde tão cedo, há tantos anos, se concretizou.
Eu finalmente saí da casa da minha mãe.
Ainda estou me mudando, como parte do acordo que fiz com ela, pra amenizar o trauma de todos.
Até hoje eu não contei pra minha tia, oficialmente. Ela sabe. Família; a notícia corre.

Escutei que ela só queria minha felicidade.
Escutei da minha avó que estou sendo ingrata.
No meu aniversário, ganhei as felicitações mais frias de todos os anos.

Daqui a uma semana, minha mudança deveria estar completa.
Não estará.
O ir e vir semanalmente pra cá não tem me feito bem nem tem sido produtivo.

Apesar dos julgamentos da minha mãe, não está sendo uma transição fácil.
Porque não foi aceito.
Porque temos uma relação simbiótica.
Porque nada mais é que uma mudança, drástica, e eu não sei lidar nem com mudança de tempo.

Minha mãe postou e ainda posta muita indireta no facebook.
Eu sei que ela está sofrendo. Eu também estou. Mas meu sofrimento não é nem um pouco validado, porque “era o que eu queria, então deveria estar feliz”.

Eu estou satisfeita com minha coragem, isto é um fato.
Também é um fato que dinheiro é difícil de administrar quando se tem compromissos sérios.
E dividir apartamento é uma tarefa complicada. Eu sou chata.
Tenho manias, eu sei. Tenho preferências. Gosto de ficar no meu canto, principalmente quando a depressão bate, como é o caso.
Pessoas são muito diferentes e você nem elas estão dispostas a tolerar como nossa família está “disposta”.
Meu quarto não será mais meu quarto porque estou me mudando dentro da própria casa. Nem ao menos cheguei e já houveram mudanças. Estamos trocando um roomate que preferiu ficar mais perto do trabalho.

Ultimamente eu tenho sentido muito tudo.
Desde às vésperas do meu aniversário as coisas não estão boas.
Tem a ver com a proximidade de tudo se finalizar, tinha a ver com inferno astral que bombou esse ano. Tem a ver com depressão. 

Vir pra casa da minha mãe no fim de semana e passar a semana aqui está sendo muito sofrido. Uma sensação de culpa, de erro, algo muito maior que deveria ser.
O sentimento é legítimo, mas a vontade de voltar atrás não pode tomar conta, e tem dias, momentos, que é tão maior do que eu, tão mais absurdamente mais significativo do que tudo que eu conquistei, que me assusta e preciso falar pra evitar levar à cabo e mais uma vez fazer o que querem que eu faça, ao invés de seguir com a minha vida do jeito que acho que deve ser.

São mais de 30 anos vivendo à sombra de mim mesma. Vivendo sob as expectativas dos outros a respeito do que minha vida deveria ser. Eu respeito, mas em algum momento eu tinha que começar a enfrentar e fazer o que acho que deve ser feito.
O medo de quebrar a cara é as-sus-ta-dor. Não tem outra palavra. Mas é necessário e aparentemente inevitável se eu quiser evoluir em algum momento.

Depressão tá batendo forte. Forte mesmo. Não era de surpreender, já que, mais uma vez, parei o tratamento à revelia, há quase 1 ano. Se os remédios eram necessários àquela época, não tem como achar que eles não fariam falta algum tempo depois.
Tenho consulta esta semana. 
Terapia estou há algum tempo, o que tem sido bem bom pra controlar os impulsos de voltar atrás e me dar um pouco de chão.

Tem a festa da minha avó no final de semana.
Tenho que finalizar a arrumação das coisas que preciso levar.
Tenho que ganhar mais dinheiro.
Tenho que receber minha segunda via do cartão de crédito pra comprar minhas passagens pra ver meu amigo no Sul.

Amigos.
Os mais significativos estão longe, ou estarão até o final do ano.
Não está sendo fácil. Inclusive porque me tornei uma pessoa muito mais dependente deles do que já fui em qualquer outro momento da vida.
Ao mesmo tempo, duvido tanto da amizade deles que chega a ser ridículo.
Eu sei que magoa mas acho que tem a ver com a visão distorcida que tenho em relação ao mundo.

Tenho um emprego novo. Fiz 4 meses. Acho que estou fazendo amigos lá. Só não ajuda muito estar com cara de merda e escutar que to sempre com essa cara. Amiga, não posso te contar que to em crise depressiva porque nem eu estou disposta a admitir isso. E não temos intimidade.
O emprego em si é bem ok. Não requer habilidade específica, só ser minimamente produtiva. Minimamente mesmo.
Me sinto entediada por vezes.
Tenho procurado outras coisas. Quero trabalhar numa empresa que não esteja quebrada. E que me pague melhor. Não fosse por isso, não estaria insatisfeita.

Eu me sinto uma merda, na verdade. Porque eu não sou boa em nada, não fiz carreira em profissão nenhuma, não sei pra que lado andar, não tenho previsão de futuro próspero e nem sei por onde começar. E não tenho mais 20 anos pra ter tantas dúvidas. Nem tempo pra encarar uma faculdade mais difícil e que tome tempo demais. Não to mais na casa da minha mãe pra decidir não trabalhar pra estudar novamente.

É uma merda se sentir uma merda.
Seja profissionalmente, com os amigos, com as próprias decisões. 

A vida não era pra ser assim.

Ainda não descobri como a vida deveria ser, mas a sensação que tenho é que tenho feito tudo errado, sempre, desde sempre e que será assim para sempre. É patético.

Eu engordei. Uns 6 quilos nos últimos 6 meses. Eu to fumando muito e há uns 5 meses tô roendo unha como na época de adolescência. Parecem muitos sintomas de um mesmo problema, eu sei. Esta semana começa a se resolver.
Problema é que bate um desespero porque eu já era gorda com 6 quilos a menos. E já é difícil me aceitar menos gorda, imagina mais. E se eu não me aceito, quem vai, não é mesmo?!
Bate uma vergonha de espelho, de gente, de rua, de tudo. E fico mal e como mais. É vicioso o negócio todo.

Minha mochila com roupas está como chegou no sábado, exceto pela calça e blusa que tirei pra trabalhar hoje.

Já comi dois salgados depois que saí do trabalho.

Dei mute em todos os grupos de whatsapp.

Desativei o facebook.

E gostaria imensamente que as pessoas não me procurassem.
Na verdade, essa parte é bem o oposto. Eu procuro tão mais as pessoas que chega a ser risível. Como disse, me tornei muito dependente de gente.

Segunda-feita. 20:37
Casa da mãe

E saí. Mas o medo não. A sensação de estar perdida parece pior do que em tantos outros momentos.
Pode ser que finalmente eu esteja me encontrando, o que já deveria ter acontecido há muito tempo. Estou fora da curva pras pré-definições da sociedade e o que ela demanda de nós.

Só tenho medos e fantasmas e neuroses pra me acompanhar. E algumas lágrimas que aparecem de vez em quando.

 

**(Legal mesmo é terminar o post ouvindo uma música que eu realmente preciso cantar pra mim mesma.)

She broke down the other day, you know
Some things in life may change
But some things they stay the same

Like time
There’s always time
On my mind
So pass me by
I’ll be fine
Just give me time

 

 

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