Eu não pensava como uma possibilidade. Algo em mim fez deletar qualquer desejo da época de faculdade.

Não sei se foram as crises, se foi minha família com seus ideais egoístas. Não sei.

Também não sei se tem a ver com a minha imensa insatisfação com a vida e o que eu fiz dela. Com o trabalho, com a falta de realização profissional.

Sei que agora voltei a estudar. Direito. Fazer jus aos 5 longos e sofridos anos de faculdade, tirar minha OAB e, de alguma forma, me realizar. Não por salários e coisas do tipo, até porque não acho que a profissão permite tanto assim, mas me realizar fazendo algo que eu realmente dou valor e que me fará feliz.

Felicidade. Tá aí uma palavra que há muito tempo não relacionava com Direito. E hoje me peguei pensando no quanto posso ser feliz na área. Não penso em concurso num primeiro momento, e pra muitos e pra minha família isso é um erro grave de percurso. Naquelas famigeradas enquetes dos professores nas salas de aula, nunca levantava a mão como um dos que faziam faculdade pra prestar concurso; nunca foi a minha vibe. Também não estou dizendo que não os tentarei. De qualquer forma, qualquer coisa é melhor do que continuar onde estou, completamente estagnada, sendo desmerecida e sem ter um caminho profissional do qual me orgulhe.

O ano começou assim. Novos e grandes planos. Pareço estar mais madura, o suficiente pra tentar fazer com que eles deem certo ao invés de desistir no caminho. Espero mesmo que eu não desista e talvez isso não aconteça, apesar da grande dificuldade que vou ter pra me atualizar e prestar a prova, depois de quase 3 anos sem estudar absolutamente nada.
Mas enfim. É isso. Estou animada, depois da primeira aula no curso e espero mesmo manter o encantamento com minhas próprias decisões, desta vez mais forte pra rechaçar quem vier me desanimar.

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Faltavam-lhe sonhos.
Daqueles sonhos grandes, de encher os olhos, de emocionar ao compartilhar. Faltava-lhe perspectiva de uma vida nova.

Tudo que ele conhecia era do mundinho ao seu redor, as mesmas conversas batidas, os mesmos bares, a mesma vizinhança, os mesmos hábitos de pessoas que o incomodavam. Parecia mesmo que nada poderia mudar, já que sempre tudo foi tão igual.

Quem mudava, na verdade, eram os amigos. Parecia que todos evoluíam e cresciam e amadureciam menos ele. Não, não parecia, era aquilo mesmo. O tempo passava; e sempre tinha aquele – ele – que ficava pra trás. Formatura de amigos mais novos, novo emprego, carreira profissional, casamentos cada vez mais frequentes. E ele vivendo seu status quo como se esperança não houvesse de um dia ver sua vida mudar.

Até que um dia ele conheceu outras pessoas. Outra realidade. Havia mais lá fora, mais do que ele conhecia e conseguia imaginar até então. E conviver com outras vidas e outras histórias abriu um mar de opções à sua frente e o fez questionar tudo que ele estava vivendo e tudo que ele conhecia e acreditava.

As pessoas que o rodeavam não faziam ideia do quanto foram importantes pra que ele enxergasse além da bolha em que vivia. Outras histórias, outros pontos de vista, outras opiniões, novas rotinas. Tudo contribuía para que ele conseguisse se reerguer das cinzas que ele mesmo fabricara, da sua vida mais ou menos, do fatalismo que achava viver. As pessoas começaram a fazer parte da sua vida, mesmo que de forma discreta, mesmo não se tornando amigos, mas apenas como meros colegas. E cada história de vida, cada piada inédita, cada personalidade e senso de humor foram o transformando.

Ele não era mais alguém sem perspectiva, mas uma pessoa que via a possibilidade de mudança em tudo que fazia e vivia, porque ele fazia parte da mudança de vida de outras pessoas. Conseguiu ver que a vida não é uma bolha, os sonhos podem ser reconstruídos, as pessoas podem, sim, alterar o rumo da história. Não tinha idade, background ou qualquer outra coisa que o impedisse de ter esperanças.

E então o ano virou. Ele não sabe o que o espera pelos próximos 365 dias à frente. Mas sabe que chegou até ali desconstruído de todos os pré-conceitos que ele mesmo criara, de todas as certezas que nutria dentro de si. Ele sabia que a partir daquele momento, daquele  “3, 2, 1, feliz ano novo” tudo poderia mudar. É só uma data, só mais um dia, mas é onde a esperança mora, e que ele aprendeu ter durante o ano que passou. E apesar disso tudo ele tem consciência de que a vida pode dar errado, que nenhuma das metas podem ser alcançadas, que eventuais problemas podem aparecer. Mas também sabe que sempre haverá outra virada, outras pessoas, outros planos e outros problemas.

Ele não era o mesmo ser humano que as pessoas conheciam. Ele era mais. Mais dele mesmo, mais pros outros, mais cheio de si, mais confiante. Mais maduro e consciente do mundo ao seu redor.

Segurando uma taça de champagne, mentalizou tudo de bom que viveu, tudo o que pretende viver, olhou pra lua e se desejou um feliz ano novo.