Música (+) Eu (=) Subverteu².

Sabe aquilo que “take your breath away?”
Aquilo que, num dia de tempestades te faz achar que algo de bom ainda pode vir?
Aquilo que com tanta paixão vemos, como aquela paixão de um primeiro amor adolescente mas que nunca passa?

Pois é. Tem poucas coisas na minha vida atualmente que tentam chegar ao nível ‘animadinha’, ou no mínimo ‘interessada’. Cada dia que passa, eu vou ficando cada vez mais meio numb, meio anestesiada mesmo das sensações alheias e minhas. Parece que vivo num mundo paralelo onde nada se sente, onde eu e minhas cópias vivemos esperando o dia acabar para outro tão insípido venha.
Daí a gente vive aquele dia, como qualquer outro, só no Ctrl+C/Ctrl+V de situações 90% idênticas às vividas nas últimas 24, 48 horas.
A coisa não tende a mudar. Você nem tem isso de achar que pode mudar, por uma questão de passividade, derrotismo. E porque não, por preguiça?
Não vou aqui levantar a possibilidade de a inércia ter se dado por um sentimento de fracasso contínuo porque nem vem ao caso.
Mas daí você vai vivendo, uma madrugada e um nascer do sol atrás do outro, consciente de que não muda.

Noite dessas comecei a cantarolar.
Foi estranho porque me distanciei de música de um modo geral. Rádio não escuto há anos, desde antes mesmo da Rádio Cidade extinguir. Minhas músicas estão no computador e não as escuto nunca. Daí comprei um MP4 porque facilitaria. Eu o uso, mas com menos freqüência do que há dois anos, por exemplo.
[Se for pra falar de abandono – independente de como tenha ocorrido, teve o violino. Abandonei a Flauta por pressão externa e fugi do piano por rebeldia hormonal. Mas enfim…].
Mesmo assim, me mantenho à busca de músicas que gosto de ouvir e normalmente são gringas, apesar da minha grande paixão por MPB e alguns representantes.

Cantar em corais, grupos de louvor, quintetos fez parte da minha vida desde os 10 anos. E quando tomei gosto não parei. Acabava um, procurava outro. E fui assim até um monstro emocional me dar uma rasteira. Juntei alguns cacos e por culpa da rotina, continuei como dava. Até não dar mais.
E ano passado, acenei minha bandeira branca à depressão, porque eu não sabia mais como lutar contra isso. Saí dos coros. Já tinha saído da igreja, presencialmente [e também com alguns outros motivos por detrás]. E eu não dei satisfação das minhas saídas repentinas nos grupos em que participava.

E na noite que cantarolei, voltei a PENSAR música.

De alguma forma, numa madrugada qualquer nessa semana, fiquei relembrando de músicas que cantei nesses corais da vida, especialmente o último, e relacionando-as aos compositores. E daí ia pro Letras.mus.br e procurava por ela. Sempre tinha vídeo com o cantor original junto à letra. Nessa busca, fui numa musica que gosto muito. Daquelas que canto interpretando o texto, cheia de uma veia artística que eu fatalmente não tenho, na frente do espelho. Mas não tinha vídeo original.
No momento que fui ver os vídeos alternativos, bati os olhos num que trazia exatamente a versão que eu cantava, pelo coro que cantava.

Não pude berrar. Não tinha a quem contar, senão ao twitter, completamente jogado às traças e aos insones de plantão como eu. E desse primeiro vídeo, vi outros e mais outros.

E naquele momento de descoberta, minha respiração começou a falhar. Meus olhos marejavam de lágrimas. Senti uma ALEGRIA que não sinto há muito, muito tempo. Senti-me fazendo parte daquilo, entendendo aquilo.

E também naquele momento, comecei a achar, talvez erroneamente, que aquilo era um sinal; porque eu tinha dito a uma amiga que não sabia se gostaria de voltar a cantar por milhões de outras questões.
Naquele momento, que durou mais de 2 horas, não havia nenhuma outra questão. Havia paixão, daqueles de você achar que te deram um alucinógeno porque você está praticamente fora de si.

Música transcende qualquer sentimento racional que eu possa ter. E apesar de parecer algo como paixão, é o puro, mais singelo e mais verdadeiro amor. Porque paixão passa. Amor permanece. Há 21 anos, desde meu primeiro instrumento.

E como todo objeto de amor, muitas vezes negligenciamos. Mas de uma forma ou de outra, ela te traz de volta pra casa; de volta pr’aquilo que sempre foi o que VOCÊ sempre foi.

E termino o texto extremamente emocional. Porque, obviamente já dito, eu sou emocional.
E não ter como ficar indiferente com algo que mexe tanto, mas tanto comigo, a ponto de encher meus olhos d’água, a ponto de me dar calafrios, me traz tantas dúvidas, tanta coisa a pensar… Mas que, independente dessas coisas todas, deixa claro que fica um grande vazio se eu não tiver música na minha vida. Se eu não tiver esta fonte de alegria, de sublimação, de inspiração, fatalmente viverei de modo muito mais medíocre do que poderia viver, tendo que lidar só com os outros fracassos e depressão que ainda me rodeiam. Viverei como tenho vivido nos últimos vários meses.

Cantar, tocar, estar cercada disso tudo, faz-me sentir parte de algum mundo. E me pergunto, em momentos como este, se eu não é a ele que realmente pertenço. De corpo, alma; de dedicação, de planos para um futuro próximo. Não sei.

Mas hoje, desde àquela fantástica madrugada, eu sei. Sei que sem música, eu sou metade, eu sou pior. Eu não sou eu.
Se aquilo que faz nossos olhos brilharem, que faz nosso coração bater mais forte, é a nossa verdadeira vocação, então tá tudo mais do que explicado.

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Domingo, 18:38. Eu cogitei ir à igreja, mas a preguiça, pecaminosamente, toma conta do meu corpo. Culpa do calor também, que não dá refresco.

Dezembro está à porta. Os dias passam correndo, as semanas somem do calendário. Dezembro está à porta, de fato. E aí começam os rituais. Os meus, os seus, os nossos. Os meus, de odiar essa época de gente feliz mentindo pras crianças e falando que Papai Noel existe; de não querer VIVER o mês, porque apesar de gostar e entender o significado do Natal, não gosto de todo o processo; de não gostar de virar o ano, seja da forma que o faço ou pelo simples fato de ter de fazê-lo.
Aí começam as correrias de compra de comida, presente, roupa pra virar ano/passar Natal. Vira a estação – se bem que no calor que tá fazendo, to pedindo a Deus que o verão fique só no nome, já tá quente DEMAIS – e todo mundo assa, todo mundo reclama, todo mundo passa mal.

De fato prefiro o começo do ano.

Mas estranhamente estou gostando desse fim de ano. Estou trabalhando ainda. Nem de muito longe é o emprego dos sonhos, o emprego ideal, mas por hora é o que tenho. E pelo menos eu distraio. Pelo menos me dá vontade de voltar a estudar. Não sei exatamente quando ou como vou começar mas é um passo; preciso sair desse marasmo.
Estou gostando de como estou. Ainda há muito o que consertar e é mesmo preciso voltar pros meus hábitos terapêuticos, que, acredito eu, irão dar um up no quesito voltar a estudar. Mas há um quê de leveza, algo de mim que tinha ficado pelo caminho há uns 2 anos atrás, quando minha vida degringolou.
Estou feliz. Pelo momento, pela vida, pelo que ando atraindo pra mesma. Estou feliz de me sentir um tanto feliz. Confesso que tem gente cooperando pra essa felicidade. E que mesmo tão diferente, me faz tão bem. Bem comigo, bem com quem sou. E bem eu fico quando com ele. Mesmo quando levo esporro, hehe.
É, to feliz.
Durmo sorrindo.
Acordo ansiosa.
Sonho com ele. Com a gente, com o que está acontecendo. Simplesmente sonho.

Tirando isso, tem sido também um tanto marcante, esses últimos tempos; tem muita coisa acontecendo que deixa claro a necessidade de redirecionamento da minha vida. Tem coisas que saturam, relacionamentos que não dão certo do jeito que são. E isso não ajuda muito pra paz plena, pra minha serenidade e sanidade mental, hehehe!

Não tenho muito o que falar,só queria falar. Ainda tem muito mais a dizer – afinal eu SEMPRE tenho o que dizer – mas algumas coisas são necessárias pra que isso aconteça. Muito medo e receio, porque elas dependem de mim também…

Deixando tudo isso de lado, vou ali tomar o resto do sorvete da casa porque ó, to derretendo.
Compartilho da minha felicidade depois.

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Mas o melhor do mundo são as crianças*

[Este post era pra 2ª-feira, mas por falta de tempo, só chegou hoje]

Há exatos 15 dias, a melhor semana da minha vida começou. Um amigo me pediu que o ajudasse a interpretar uns americanos em uma das congregações da minha igreja. Quando topei, tava toda animadinha, as coisas estavam boas e aceitei de bom grado. Quando chegou no domingo, quando eu deveria ter começado, estava eu em casa, bem debaixo do meu edredom vendo The Amazing Race. Então só fui na 2ª.

Não estava muito animada não, apesar de ser algo que eu gosto de fazer. O humor não era mais o mesmo, muitas coisas haviam se passado depois do convite… Enfim, tudo tinha realmente mudado, mas como me comprometi não quis deixá-lo na mão (apesar de ter feito isso com uma amiga minha e até hoje não ter dado satisfações).

Cheguei e enfrentei 11 americanos. Todos bastante educados e simpáticos, mas tava bem perdida no que seria aquele dia, a semana e achei sério que era uma canoa furada. E então, as crianças foram chegando. Por algum motivo, eu só soube que eram com crianças que os dudes trabalhariam quando cheguei lá. E tinha pra tudo que era gosto, tipo, faixa etária, etc. E o primeiro dia correu bem, apesar de muita insegurança, muita informação e muito inglês carregado de sotaque pra me desafiar. Voltei pra casa morta. Podre. Um caco.

As coisas foram piorando e melhorando conforme a semana passou. Mais crianças apareceram, mais intimidade eu tive com os estranhos – 99% das pessoas – e mais habilidade em driblar crianças mais espertas do que eu e com 20 anos a menos também.

Teve um momento que achei que não aguentaria mais. No meio da semana, fiquei absolutamente sozinha com cerca de 30 crianças, de 4 a 12, 13 anos e o bando americano. Crianças que não me conheciam e não faziam muita questão de me obedecer, ou eram extremamente carentes e me queriam só para elas, adicionado aos americanos que dependiam de mim pra absolutamente tudo porque deles só saíam: ‘bom dia’, ‘boa tarde’, ‘obrigada’. No máximo conseguiam as palavras que decoravam pra falar às crianças e os nomes do pessoal que tava lá. O meu nome até o último dia não saiu direito, hehehe!

Naquele dia pensei que surtaria de tanta estafa mental e emocional, sabendo que mesmo que eu quisesse, não podia deixar de estar ali e também que era só mais um dia. Voltei pra casa andando. Cerca de 4 km depois de 3 horas de atividade e 2 horinhas de aula pela manhã.

Como intimidade é uma merda, conforme a semana passou as crianças ‘abusavam’ da minha boa vontade, mas vê-las aprendendo e cheia de curiosidade naqueles olhinhos, querendo aprender a falar qualquer palavra naquela língua estranha a eles, me dava uma alegria e satisfação que compensava o cansaço. E foi assim até o último dia.

Esse sim – o último dia –  foi desafiante. Nunca tinha chegado a sentir verdadeiro desespero por pura falta de controle da situação. Não estava sozinha, mas o número de crianças era quase o dobro dos outros dias, por conta do feriado.

Minhas energias foram zeradas. Mas no final do dia, toda uma emoção. Os menores vieram me abraçar, pediam pra que não fôssemos embora – já que além dos americanos, eu não era de lá – e ainda teve uma que me abraçou tão forte e soluçava tanto… A essa altura eu já tava cansada de chorar… e cansaço, de emoção e de deixar aquilo tudo, aqueles pequenos que, com muito pouco, criei um vínculo emocional muito forte.

Teve uma pequena, em especial, que me deu muito trabalho. Era uma das mais bonitas, graciosas, mas com tantos problemas que eu realmente não consigo imaginar. Eu cuidei muito dela. E depois que a semana passou percebi que me liguei à ela mais do que com outras porque naquela idade eu me sentia como ela se sente; e muitos me tratavam como ela era tratada. E os choros, às vezes por bobeira, mas muitas vezes com motivo, eram os choros meus de 20 anos atrás.

A última coisa que fiz foi me despedir, com muita lágrima no rosto, dos americanos, que me receberam muito bem, elogiavam meu inglês quase sem sotaque, meu trato com crianças e ainda ousaram dizer que o que fiz ali era verdadeiramente de coração, que eu tinha dom pr’aquilo. Ainda não analisei a fundo essa questão. Mas queria contar que tive a semana mais esplêndida por conta de coisas até bem simples.

E hoje, retiro minhas palavras repetidas tantas vezes há alguns anos atrás pra dizer que, trabalhar com crianças, pessoas puras, de coração aberto, interessados naquilo que você tem a oferecer, com um sorriso pronto mesmo quando fazem besteira, que não tem medo de dizer que não sabe e ainda perguntam como se faz, que quando abraça, é sincero e, mesmo quando a gente acha que não, eles ouvem o que dissemos, mesmo que seja algo ruim.

E a cada dia que passa meu desejo por filhos aumenta; meu desejo em adotar aumenta. E acho que quando conseguir a minha família, com meus pequenos, serei realizada e viverei feliz, porque, de fato, criança traz felicidade.


*trecho de ‘Liberdade‘ de Fernando Pessoa.

2009

2009. Ano ímpar. Dizem as más línguas que ano ímpar é ao pra arranjar um par. Não garanto certeza de satisfação total verificando que alguns anos ímpares já se passaram e testemunhas vivas continuam solteiras em anos pares e ímpares. Essa e outras coisinhas que se ouvem por aí, na minha humilde opinião é tudo balela. Mas há quem acredite. Há quem ainda acredite em Bicho Papão, em Papai Noel, em coelhinho da Páscoa, em príncipe encantado, em paz mundial, em emprego perfeito, em família perfeita, em vida ideal.

Nada contra; sonhos, dizem, quanto mais os têm, mais fácil de viver. Eu tento. Tento viver do meu jeito, com peito aberto pra vida que Deus me deu. E neste ano que vai começar, as esperanças se renovam. Mas não com os sonhos irreais que outrora tive. Hoje minha esperança se basta em si só. Em ser, literalmente esperança. Esperar pelo que há de vir. Expectativas, não as quero mais. Vivo só de esperar. Esperar pelo amanhecer, pelo anoitecer. Pelo feriado e pelo fim de semana. Pelo aniversário e pelas festas. Pelos choros por coisa nova e choros por motivos antigos. Esperar pela coragem que ainda não tenho. Pelo medo que não me abandona.

Esperar é mais difícil do que acreditar no que não existe. Esperar requer ter consciência da realidade e esta nem sempre é boa. Acreditar no inexistente é uma fuga, mas uma fuga consoladora; fecham-se os olhos pro ruim, pro mau e pro inevitável; pro chato, pro trabalhoso, pro obrigatório. Esperar requer coragem. Coragem que nem sempre as pessoas têm. E eu me incluo nisso. Me finjo de forte, de independente, de bem resolvida e de moderninha. Mas meus conceitos são retrógrados, me escondo atrás de máscaras, preciso de atenção e sou frouxa como um filhote de cachorro recém desmamado.

Mas 2009 está aí e a cara está à frente, esperando o tapa que lhe é devido. A coragem, finjo ter, me faço de valente e de noite, como quem finge não querer nada, me escondo debaixo do cobertor no meu cantinho escondido.

E que venha! Venha me desafiar, me irritar, me apaixonar, me alegrar, me surpreender, me entristecer, porque também faz parte. Darei à cara a tapa aos corajosos que partirem pra cima de mim, pras situações mais constrangedoras, mais pitorescas, mais inusitadas, mais rotineiras. E que seja assim. Assim, como quem não quer nada, que 2009 venha pra ser o que lhe é de obrigação: fazer-nos passar por mais um ano, vivendo as aventuras que é viver uma vida, derramar uma lágrima, gargalhar às alturas, dançar como se ninguém estivesse vendo. Mais 52 semanas. Mais 365 dias. Mais 12 meses. E só.


Bondade é pros Fracos

Sem qualquer modéstia neste momento – e talvez seja exatamente nisso que peco – sou um ser humano raro. Sério. Deus me fez com carinho mas esqueceu um pouco da beleza. Mas de fato sou uma boa pessoa.
Hoje passo meu dia reclusa no meu quarto, desde às 5:15, hora em que cheguei e discuti e consegui ir pro meu quarto enfim, até o momento em que escrevo aqui essas palavras. Tiro, porém, os momentos em que liguei essa máquina e comi pão na chapa com Coca-cola e tomei banho. Não haveria motivo para isso se eu não me sentisse culpada por ter tido uma ótima noite regada à diversão e amigos. Deus me fez boa filha, boa, neta, boa sobrinha, boa prima; e só não sou boa irmã por falta de um(a).

‘(In)felizmente’ tenho a ‘péssima’ tendência a colocar a vontade alheia à minha. E por mais que tente agradar, estou sempre sendo desagradável, porque, por um momento de prazer que creio ser meu direito, desagrado tanto que essa insatisfação criada poderia servir por uma vida inteirinha…

O que mais me perguntam é como consigo ser assim. Como consigo, literalmente deixar de viver para não fazer os outros infelizes. Ceder tanto de mim e da minha vida no auge da minha vida. E no final, infeliz fico eu, seja por tentar evitar a infelicidade alheia ou por tentar ser e estar feliz com um pouco, e ver a tragédia em que isso se transforma.
Também sou boa amiga, não nego(como disse acima, a falta de modéstia é quase que o tema central deste texto). Tento me convencer que sou egoísta mas não sou, minhas atitudes falam por mim. E nem é por falta de tentativa. Mas isso não me faz infeliz não, mas tentar agradar todos ao mesmo tempo pode causar certas dores de cabeça.
É o que eu chamaria de uma pseudo tentativa de “Síndrome de Jesus Cristo”. Até tento salvar tudo e todos e no final creio que só crio confusão.

Confesso: fico triste em não ser egoísta.
É por isso que me sinto uma perdedora. Ou ‘vencedora’, citando meus queridos Los Hermanos: “faço o melhor que sou capaz, só pra viver em paz”. E é por aí. Sou perdedora porque perco de mim pra fazer os outros. Mas venço em tentar encontrar a paz nessas atitudes. Essa paz, infelizmente me custa mais caro do que meu bolso está disposto a pagar.
Paz esta, mais cara do que pessoas ‘normais’ costumam se propor a pagar. Não digo isto por me sentir melhor ou superior, mas sim por ser mais boba, mais trouxa ao ser tão boazinha assim.

Minha bobeira me faz insistir no ‘ininsistível’, desistir dos meus sonhos pela simples questão de ter a tal paz que busco sempre e nisso abdico do que considero ser direitos por mim adquiridos.
Sou boba até quando se trata das piores questões que assombram meu falido viver; e vos digo: o amor. A bobeira não se trata apenas por eu não ter coragem de correr atrás do que quero, no sentido de enfrentar minhas vergonhas e limitações e falar o que se espera ser falado. Ao invés disto, desisto ‘fair and square’. E não! Não me sinto mal por isto. Fico feliz com a felicidade das pessoas. O amor não correspondido que outrora me assombrou algumas vezes, tantas vezes, se transforma facilmente em felicidade pela felicidade alheia. Não sei quem me ensinou a ser assim, se foi Deus quem benevolamente me fez pro bem.
Desisto também de quem mal quero. O mínimo conflito de interesses fugazes me faz passar a vez. Não me vale a pena. E poxa, por que ser má, por que amargurar o que não vale a pena? A vida já é por demais amarga para continuar regando esse tipo de sentimento.

E escrevo estas palavras por ter escutado de uma amiga e de certo modo também ter confessado a mim mesma que essa sou eu: boa, boba, tola. E se já não sou muito feliz assim, prefiro nem conhecer algum possível lado o oposto que teoricamente eu teria.

Agora choro. Choro por perceber que bondade não tem recompensa. Até nos atos de maior relevância, ser boa é ser mal interpretada. Que bondade me garante uns bons amigos – que quando bem escolhidos não se aproveitarão dessa minha característica – é inegável. E disto não reclamo; os meus, a não ser que sejam exímios atores, me são bons de verdade.
Mas com amigos bons, com uma vida melhor que de muitos, com uma boa índole e um bom coração, atitudes positivas para com outros (nem sempre comigo), continuo sendo uma pessoa incompleta que já passou da beira da autodestruição.

Acredito ser válido tentar acreditar que um dia atos de bondade serão recompensados. Acredito que talvez seja necessário acreditar no equilíbrio das coisas para manter aquela pequena chama acesa que me permite continuar vivendo. Porque, se algum dia, eu realmente me pegar realizando que de nada me vale ser assim – e não, não o sou por busca de recompensas, apenas sou – de verdade, não me valerá nada viver.
Diferente disto nunca serei, não consigo. Minhas essência é translúcida e seu cheiro exala nos poros da pessoa que me tornei depois de vencer a corrida dos espermatozóides.

E hoje, eu, pessoa boba não sou nada, tampouco alguém, porque a bondade que tenho no coração e que carinhosamente afaga um cachorro labrador às 5 da manhã, é só mais um alguém a levar rasteiras de um ríspido mundo que considera essas minhas ‘propriedades’ como um grande amontoado de fraquezas.

[Não] Juro Parar de Reclamar.

O fim do ano se aproxima e já tive uma prova de como vai ser meu dezembro/janeiro. E como sempre, odiei. Acho que eu sou algo que não sirvo pra algo que pessoas servem, em todos os sentidos. Acho que nem pra filha eu sirvo, porque se minha mãe se surpreende com a minha solidariedade algo de errado tem.

E talvez não sirva como amiga porque aparentemente eu não dou atenção adequada a todos de forma igualitária; me disseram que eu escolho os programas que quero fazer e com quem fazer; se isso for verdade só mostra que eu sou uma imbecil. E sou mais imbecil ainda por me preocupar com quem nem minha amiga quer mais ser. E eu nem sei porque!

Aí, as que ainda tentam, as guerreiras, um dia vão desistir e eu vou acabar como Tom Hanks e uma bola de vôlei. Enlouquecida e falando com objetos. A impressão que tenho é que não estou tão longe assim mas preciso acreditar que ainda não sou maluca de todo.

E penso: se não sou capaz de ter a estima da minha família, a atenção das minhas amigas, quem sou eu pra querer um cara? E pior, eu só quero cara que quer outra. Ou vem com aquele papinho de “não quero me envolver agora”. Valeu então. Valeu por elevar eu ego e depois trancafiá-lo no primeiro bueiro que passar.

Sabe qual o meu problema? Eu não consigo viver no mais ou menos. Ou acho que tá tudo bem, o que só mostra um lado completamente alienado e enlouquecido ou vivo no meu pessimismo adquirido na infância, quando roubavam meu lanche e me chamavam de chorona. Ainda vou aprender a dar uma de Obama e nação estadunidense e falar “Yes ‘I’ can”. Mas quando tento, vem um espírito de porco e diz que se eu não passo na OAB não será na prova mais difícil do país que isso vai acontecer. E não, não é pra juiz. E não, não vou continuar a falar nela.

Talvez eu deva escutar mais as pessoas, porque como sou muito teimosa esqueço que não faço parte da nata intelectual da sociedade e a única coisa que sei fazer direito é ser debochada, sarcástica e engordar. O que já me foi dito que são formas de mascarar seja lá o que for de mim.

E pronto, ta aí; não sou uma boa persona familiar, não dou pra ser namorada de ninguém,  não sirvo pra querer ser profissionalmente quem quero ser, não sirvo nem como boa paciente de terapia,  sem contar que minhas amigas são realmente insistentes, já que eu sou seletiva e muito ruim nesse lance de relacionamento interpessoal.

Se pudesse saía correndo igual Forrest Gump, teria um ano sabático, viraria ermitã, voltava 5 anos e não faria faculdade de Direito, me acostumava com o fato de não ser brilhante em porra nenhuma e coisa que se faz necessário pr’aquilo que chamei de meus planos . Sem contar que a melhor de todas as decisões seria me tornar celibatária, porque, convenhamos, to de saco cheio dessa minha vida que aparentemente se divide também em ‘amorosa’.

Meu gosto musical não agrada à massa, meu estilo indefinido de me vestir confunde até a mim, minha mãe trata a sobrinha como a neta que ela acha que nunca vai ter, meu cabelo me desaponta, não consigo emprego como nada, tampouco acredito que um dia vou ter sucesso na carreira; já vislumbro meus 45 anos morando com minha mãe e ainda pensando no que vou fazer no ano seguinte.

Se pelo menos minhas unhas crescessem fortes pra que eu pudesse pintar de preto e ser menos infeliz nesse momento, ficaria agradecida.


O Gosto dos Outros*

Gosto é um troço esquisito, né? Cada um tem o seu mesmo. E pior é conviver com os que consideramos de mau gosto.
Hoje percebi que o que a gente mais tenta é impor o nosso aos outros. Ou no mínimo esperar que as pessoas tenham o bom senso de ser como somos e gostar do que gostamos. E é tão ridículo. E o mais ridículo é o que vem depois; a conformação de que, um dia qualquer, pode ser que ninguém, absolutamente ninguém, goste das mesmas coisas que você.

Me pediram pra escutar um cd aqui em casa. Uma tal de sei-lá-o-que Taviani. Olhei com cara de nojo. Tá que nunca escutei falar mas com um sobrenome desse achei que não merecia minha atenção. Aí soltaram: “Você gosta de rock, né?” Só pude balançar a cabeça. E nem é totalmente verdade. Fatalmente não gosto só de rock. Mas também tenho quase certeza de que dessa tal Taviani não vou ser fã.

Tô feliz porque o Flamengo ganhou. Mas tem uma multidão de pessoas que está mega furioso e ainda dizendo que foi o jogo foi comprado. Se todos gostassem do flamengo seria uma alegria imensa nessa cidade nefasta. Mas tudo bem, ao meu ver é só um bando de pessoas de mau gosto. Que ainda chama a nós flamenguistas de favelados (tudo bem que o povo perde a linha).

Gosto de um rapaz. É, a vida é assim, amores, dissabores e tudo mais que vem no pacote. E o rapaz não gosta de mim. Ah, mas quem dera se gostasse. Toda aquela coisa brega de mulherzinha apaixonada que se passa na minha cabeça poderia se tornar realidade. E olha que nem é amoooor, hehehe…
O que importa aqui é que o gosto dele não bate com o meu. Senão não estaria a escrever isso aqui. E hoje descobri coisas faladas a meu respeito que só corroboram a grande impossibilidade de isso tudo mudar. Mas na boa: é o gosto dele. Não posso mudar isso. Por mais força que pudesse fazer, por mais charme que pudesse jogar (que fique claro que não é meu forte at all, então seria furada do mesmo jeito), não posso mudar o que se passa naquela cabeça e naquele coração. E o que eu posso fazer? Partir pra outra, como qualquer pessoa sã, maior de idade, esclarecida e vacinada.

Minha avó vê todos os milhões de telejornais da tv, de todos os canais. Minha mãe vê todas as novelas da Globo. E algumas de outros canais que encaixam no horário dela. Eu não vejo jornal. Nem novela. Mas vejo tudo quanto é seriado, sitcom, reality show. Amo. E as duas odeiam. E questão de gosto. Ou a falta dele.

E a vida gira em torno disso, é verdade. Aquele máxima babaca mas que faz um puta sentido: “o que seria do azul se não fosse o amarelo?”

Já dizia o lindo Tom Jobim, “se todos fossem iguais a você, que maravilha viver”. Na verdade o que eu penso e você também(não me engana não!!!) é que seria uma maravilha mesmo viver se todos fossem iguais a nós; nos conhecemos, sabemos do que gostamos ou não. E sabemos lidar conosco (tá, nem todo mundo sabe lidar consigo mesmo)!

Ao mesmo tempo, acho que faz parte. Faz parte eu gostar de rock e minha mãe de mpb. Faz parte perder meus dias olhando pro tal carinha, que olha pra uma menina, que está de paquera com um outro, que na verdade não gosta dela e sim de outra, que não gosta de ninguém, afinal. Gosto é gosto.
Faz parte ter um bando de gente com um gosto estranho, torcendo pelo Vasco, Fluminense, Grêmio, Cruzeiro, Atlético…


Faz parte todo mundo gostar de coisas diferentes. E eu sei disso. O problema é que só hoje fui me dar conta de que a vida é assim. O lance agora é me adaptar a este admirável mundo novo recém descoberto por um ser de 25 anos e diploma universitário…definitivamente ainda há muito o que se aprender na vida…

*Filme francês bacana. Procura no Google.

Saudades

Saudades de ontem.
Saudades do colégio.
Saudades da piscina.
Saudades do medo de palhaço.
Saudades do medo de escuro.
Saudades do violino.
Saudades das aulas de flauta.
Saudades do morcego na cortina.
saudades do tempo integral.
Saudades do lanche do colégio.
Saudades do esqueleto do laboratório.
Saudades dos apelidos.
Saudades dos choros por causa dos apelidos.
Saudades das freiras.
Saudades de limpar o chão.
Saudades do arroz “parabolizado”.
Saudades do chão do metrô.
Saudades do queijo quente da cantina.
Saudades do ping-pong no final das aulas.
Saudades do vôlei antes das aulas começarem.
Saudades das chuvas no colégio.
Saudades do colégio novo.
Saudades do colégio, hoje antigo.
Saudades da saia abaixo do joelho.
Saudades do Hino Nacional e do colégio toda sexta.
Saudades de levantar quando o professor entrava e saía.
Saudades do tiroteio em plena tarde.
Saudades das aulas de Francês.
Saudades das piadas que só hoje eu consigo entender.
Saudades da apresentação de fim de ano.
Saudades das poucas visitas do meu pai.
Saudades dos amores que vieram.
Saudades dos amores não correspondidos.
Saudades dos que amavam outras.
Saudades dos amores que foram.
Saudades dos amores que talvez nunca venham.
Saudades dos ônibus lotados.
Saudades do uniforme.
Saudades de Espanha e Portugal.
Saudades da formatura que não fui.
Saudades do pré-vestibular.
Saudades dos amigos.
Saudades do churrasco.
Saudades das besteiras.
Saudades das “encobertas”
Saudades de Malhação.
Saudades do vestibular.
Saudades de Coro Infantil.
Saudades da primeira entrevista.
Saudades do primeiro emprego.
Saudades do primeiro esporro.
Saudades da primeira chefe.
Saudades da primeira aula da faculdade.
Saudades dos apelidos.
Saudades das tardes livres.
Saudades do meu tio.
Saudades do meu chefe velho.
Saudades da enrolação no estágio.
Saudades das férias.

Saudades do que tive.
Saudades do que quis ter.
Saudades do que tomaram de mim.
Saudades que eu quisera viver.
Saudades de saudades.
Saudades de ontem, que nunca volta.
Saudades de hoje, que sempre vem.
Saudades de amanhã, que é sempre agora.