Textos Antigos: uma explicação

Como informei uns posts atrás vim postando uns textos antigos, guardados no rascunho de outro blog. Finalizo esses textos mais antigos com esse que foi, na verdade, o 1º do tal blog. Todos tem tag ‘textos antigos’ e não tem nenhum tipo de edição de texto, como cores e tal. E acabaram.


Ets Em Fantasia De Carnaval

Engraçado. Tudo é muito engraçado. Creio que todos os seres viventes neste mundo de aflições deveriam ter aulas de sociologia, antropologia e psicologia instrumentais. Tudo isso, sim, tudo isso. E por quê? porque as pessoas estão perdendo a noção de senso comum, de gentileza, de dor, de tudo isso que afeta o outro.

Definitavemte não é uma lamentação, isto aqui. É um testemunho indignado com o comportamento social… E não digo isto de levantar pra velho sentar não. Digo das pessoas serem sensíveis ao próximo.

E nossa, como isso me irrita. Como me irrita a falta de tato. A brincadeira fora de hora. O egoísmo lato. A punhalada nas costas. O descaso. O descanso. Me irrita o sorriso falso, a gargalhada forçada, a “forçada” de barra, o comentário rasgado, a mentira desgraçada, a inconveniência desavergonhada.

Me entristece tanta falta de profundidade nas relações. E não por simplesmente termos de nos preocupar uns com os outros, mas porque desta forma nem nós nos conheceremos a fundo. E quanto mais eu vivo, mais tenho a sensação de que não sei quem sou. E não num sentido rebelde sem causa. Mas na falta de identidade. Na falta de algo que me assemelhe a alguém. E quando há um sentimento de coletividade, quando há a preocupação em enxergar o outro como semelhante aí sim sabemos quem somos. Com certeza antropologia iria ajudar…

Mas afinal, ainda tenho esperanças… Na pior das hipóteses, somos todos ETs em fantasias de carnaval.

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Inspiração

Lembro muito deste espaço aqui. E no quanto eu tenho tido vontade de escrever. Mas poxa, a vidinha atribulada de cada uma de nós não permite muitas visitas, creio eu.

Bem, uma está às voltas com uma monografia cheia de encosto, que dá tudo errado sempre.

Outra, a mais distante do blog, nunca sequer escreveu aqui, mas digo que é algum tipo de resistência, como uma amiga curiosa em psicologia diria. Dá pra entender também…. Ela trabalha num local onde usa-se uniforme. Uniforme! Um short verde fantástico.

Por último, mas não a última, abandonou-nos territorialmente. Fugiu pra terra do coração dela. Pra estudar, conhecer da vida, arranjar emprego, ser independente e se perder nas ruas de SP. Agora ela não tem muito tempo e/ou saco. Ainda não descobri.

Também acredito que de nada vale querer escrever quando não se tem nada de bom pra falar. Verdade é que, coisa inútil demais, ruim demais, deve ficar guardado no coração de cada um; não precisa expor-se ao ridículo.

Por outro lado, escrever é realmente uma exposição. Exposição das palavras, dos sentidos, dos sentimentos e das vivências. E talvez, expor tudo isso, mesmo que de forma inútil seja realmente útil pr’aquele que o faz.

Tenho pensado demais se devo ou não continuar escrevendo. Não vejo muito motivo pra colocar pra fora tanta palavra, pra vomitar tudo que fica entalado na minha cabeça. Até porque, muitas vezes, ela fica entalada de ar. Um grande oco procurando por nada.

Confesso que acabo me irritando comigo mesma, nessa ânsia de querer escrever, mesmo que sobre o nada. Fico entre a cruz e a espada. Fico sem saber por onde ir, mas isso já faz parte da minha natureza completamente indecisa…

Mas sinto falta. Sinto falta de inspiração. Sinto que a tenho perdido a cada banho, a cada bocejo. E arranco de minhas entranhas palavras, mesmo que preenchidas por nada, sem significância alguma, só pra me convencer de que minha inspiração ainda não se acabou por completo.

Talvez nenhuma de nós volte aqui com frequência. Mas posso dizer que eu tentei. E elas também. Mas o bicho que nos persegue, cada qual com o seu, foi mais forte e nos venceu.

Despretendendo

Acredito que sou uma pessoa despretenciosa. Sério. Não tenho grandes pretensões na vida. Algumas, mas não muitas. Talvez isso me faça uma mulher medíocre e acredito, sim, que eu seja.

A gente cresce cheio de expectativas, pessoas com expectativas esperam que sejamos alguma coisa… que sejamos qualquer coisa. E daí surgem os rótulos. E são eles que acabam com a boa vida que então pretendíamos.

Você é canhoto ou destro?
Torce pra que time?
Gosta de que cor?
Mora em que cidade?
Lê quais livros?
Gosta de que tipo de música?
Tem alguma marca de nascença?
Sua letra é bonita?
É gordo ou magro?
Baixo ou alto?
Tem orelhas grande?
E o nariz?

E assim vai. E assim, algo que era pra ser tão simples, se torna tão complicado. Os rótulos te definem pro mundo. E o mundo só te conhece por eles. Quem é você, senão um canhoto-flamenguista-fã-de-amarelo-carioca-leitor-de-ficção-roqueiro-com-pinta-no-braço-direto-de letra bonita-gordo-alto-de orelhas razoaveis-nariz-de-batata?
Você não é ninguém. Ninguém é ninguém, até que entreguemos nossa ficha cadastral.

O problema está: preciso mesmo preencher tal ficha? Preciso mesmo dizer que sou flamenguista pra alguém me olhar com bons (ou maus) olhos??
Eu não quero! Eu renuncio toda e qualquer característica sobre mim mesma. Eu renuncio qualquer coisa que me qualifique. Não vejo mal em ser desqualificada.

Ser desqualificada, ser só eu, pelo menos não cansa. Ser tantas coisas, mesmo que estas coisas sejam inatas, é exaustivo. Defender idéias, princípios, cansa. Tudo cansa. Cansa dizer que o flamengo é o melhor time do mundo; cansa defender os canhotos como mais inteligentes. Cansa dizer que o Rio de Janeiro é uma cidade maravilhosa. Eu não quero mais impor. Não quero mais me impor; quero que seja assim, simples.

Hoje eu jogo no lixo os rótulos. Não defendo mais os flamenguistas não defendo canhotos, cariocas, gordos, feios, estudantes, mancos, fanhos, vesgos. Hoje eu não defendo mais nada.

Hoej eu me libero de qualquer pretensão, de qualquer ambição. Por hora, prefiro viver na mediocridade. E vou defender a mim mesma, mas como um conjunto. E o conjunto talvez não agrade. Mas sabe da maior? Eu não tenho mais nenhuma pretensão, muito menos a de ser agradável.

Brincando de Máfia*

Cidade Dorme.
Esta é a frase que deixa uma roda inteira apreensiva. A hora em que todos fecham os olhos… E o moderador chama o assassino, para eliminar mais uma vítima.

Hoje passei o dia no meu “ócio criativo”, tirando o criativo. Não vi nada sobre esportes. Muito menos a abertura dos Jogos Pan-Americanos. Nunca fui ligada a aberturas e encerramentos de festival algum, muito menos esportivo.Quando pensei em algo pra comer, resolvi me estimular e ir ao mercado.

Juro que fiquei um tanto assustada quando coloquei meus pés na rua: tudo escuro, pouco movimento. Parecia feriado. Fiquei mais perplexa ainda ao entrar no mercado. Lugar que tem tido fila até sábado à noite, estava vazio de se ver caixa bocejar. Neste ponto foi até bom. Me pesei à vontade, sem crianças atrás de você, insandecidas porque provavelmente nunca tinha visto uma balança antes; dancei ao som de Jamiroquai pelo corredor, sem o menor pudor. Nada de carrinhos passando por cima do seu pé.

Mas apesar de ser tudo muito bom, fiquei meio tensa. Tudo bem que o Estado, o estado e o município deram ponto facultativo, mas era pra tanto? E o resto que não é funcionário público estava aonde? Na abertura do Pan??? Valha-me Deus!

Enquanto todos se divertem vendo bandinhas tocando músicas folclóricas, dançarinas fazendo passinhos ajeitados e esportistas passeando de uniforme de tactel, fico eu e meia dúzia aqui, num ponto da cidade que não dormiu. Não dormiu porque andar de olhos abertos já é perigoso demais. Nunca se sabe se o rapaz que passa do se lado na calçada vai enfiar o cigarro aceso no seu pescoço e mandar você passar tudo que tem; ou se as pessoas levando caixa de pizza na mão, na verdade têm uma arma escondida e vão te sequestrar; ou mesmo se os velhinhos que te pedem a direção de uma rua não vão te enfiar no carro te levar sabe-se Deus para onde.

A cidade viverá, por não sei quantos dias, o Pan-americano. E esquecerá de tudo que acontece, de toda a violência, de toda corrupção que nos rodeia. Até mesmo abrindo o site de um grande jornal, vê-se logo notícias fresquinhas sobre o evento. E poucas são as notícias que realmente trazem algo de importante para nós. Mesmo que sejam as tragédias, afinal são elas que nos acordam pra realidade dura que tem sido viver nesta cidade.

A cidade vive o Pan, mesmo que seja através da tevê, com som de tiroteio ao fundo.

Estamos brincando de máfia. A cidade dorme, o assassino faz a festa.
E quando a cidade acordar é que se dará conta do estrago que essa brincadeira rendeu.

*brincadeira em grupo, onde há cidadãos, um detetive, assassino(s) e um moderador. A cidade dorme, o assassino, então, mata alguém. Em seguida o detetive acorda e sugere quem seria o assassino. Depois disso, a cidade acorda, o moderador diz quem morreu e então começam as especulações de quem seria(m) o(s) assassino(s). E o acusado tem direito a se defender e convencer a todos que ele não é quem dizem… só jogando, mas é muito bom!]

Esperança?!

É difícil.. Está cada vez mais difícil acreditar que o Brasil ainda pode mudar, dar a volta por cima, sair dessa vergonha de país que somos.

Não, não é só um pensamento pessimista; é realista.

Num país que o Presidente da República Federativa resolve dar R$ 12,8 milhões de reais pra escolas de samba, tudo pode acontecer.

Me envergonho disso. Principalmente porque acaba financiando idas dessas escolas a casamentos de traficantes presos.

Me envergonho, porque a população não têm escola decente. Porque a maioria dos professores não têm qualificação.

Me envergonho, quando descobre-se que o Brasil caiu no ranking de educação da UNESCO.

Me envergonho porque o número de apreensões de armas e de prisões foram menores do que no ano passado

Me envergonho ao lembrar das reportagens mostrando tanta gente morrendo em fila de hospital; de tanta gente sem socorro por falta de recursos.

Me envergonho de ver turistas morrendo na minha cidade.

Me envergonho de ver minha cidade tão maravilhosa ficando debaixo d’ água com qualquer chuva de verão.

Me envergonho ao saber da dificuldade me se adotar uma criança hoje em dia, apesar das milhares que procuram lares.

Me envergonho sim. E me envergonho com orgulho. Não da vergonha, mas de saber que, diferente daqueles que detêm o poder, ainda me importo com o meu país, com o futuro que vem, com a qualidade de vida da população, mesmo que eu não possa fazer muito por isso.

Mas o que me dá mais vergonha é a minha falta de esperança; a falta de fé. Mas vivendo no meio desse caos, onde aquele que representa o povo só pensa em financiar escolas de samba do Grupo Especial em detrimento do básico, não há de onde tirar qualquer tipo de perspectiva de melhora.

Só um adendo: claro que todos precisamos de lazer, diversão e cultura. Mas sem educação não se sabe o que é cultura. E sem saúde não se aproveita nada. E com violência… bem, ninguém sai mais de casa…

Coisas

Coisas.

Coisa que percebi hoje:

  • dançar é quase um estado de espírito, uma elevação de você mesmo pra um nível superior, onde pouco importa ser desajeitado, sem ritmo ou brega. Quem dança, dança feliz e caga e anda pra você.
  • todo mundo é egoísta! Já percebeu que toda vez que alguém começa a falar algo sobre si mesmo, sempre tem alguém, ou você mesmo que diz: “pois é, comigo foi assim” ou “e eu?! eu tô muito mais cansada, eu tô muito mais pobre, eu tô muito mais gorda…” e por aí vai. É inconsciente, acredito eu que ninguém faça por mal.
  • chefe é sempre chefe. Mesmo quando não quer ser.
  • subordinado é sempre subordinado.
  • estagiário sempre se ferra. E é zoado. E culpado de tudo.
  • se tornar um velhinho apreciador da vida é essencial. Quero chegar aos 70 anos dançando na noite da Lapa(ou qualquer lugar que toque um sambinha, um rock, um forró, ou o que tiver de bom).
  • a mente das pessoas é completamente poluída. Cinco minutos de conversa entre 2 amigos de sexo oposto já é motivo de olhares maldosos. Só pra constar, se realmente houver maldade, acabou naquele exato momento.
  • muita gente nessa vida tem o dom de acabar com a alegria alheia.

Coisas que fiz nesses últimos dias:

  • compras de natal.
  • ajudar pessoas no trabalho.
  • dormir mal.
  • escutar reclamação.
  • aguentar gente chata.
  • pensar pouco.

Coisas que deveria ter feito esses dias:

  • Compras de Natal.
  • Estudado.
  • Lido livros pendentes.
  • Arrumado gavetas do armário.
  • Arrumado armário, na verdade.
  • Arrumado material de faculdade.
  • Arrumado um namorado (zoa, zoa…)

Por que uma lista de coisas?

Porque minha mente tá entupida e tinha que “dar descarga” em algum lugar, sorry…

Alterego

Completar 25 anos não estava nos planos dela. Nunca imaginava que em algum momento continuaria respirando e vivendo por tanto tempo.Ela sabia – e como sabia – que era uma dádiva e deveria aproveitar a chance que Deus tinha dado.
Enquanto pensava o quanto tantos anos pesam, ficou a imaginar se realmente merecia tanto.
Não é todo dia que uma pessoa tão jovem conseguia nutrir sentimento de repulsa por si mesmo; nunca, na cabeça dela, alguém dessa idade passaria tanto tempo tomando remédios controlados. Muito menos que precisasse disso.
Aos 25 anos ela achava que já teria conquistado alguma coisa que estivesse em seu caderninho de realizações. Mas nada daquilo aconteceu.
Pra ela, uma menina cheia de sonhos e (des)ilusões, viver tinha se tornado uma obrigação, das mais chatas. Acordar cedo, estudar, trabalhar…. Nada daquilo a agradava.
O futuro, ali na frente, a todo o momento e a cada segundo, era sempre uma incógnita. A falta de personalidade, a falta de vontade, talvez, a fazia duvidar de todas as decisões que tomava. Nada durava tanto tempo quanto deveria. A persistência em sua vida só se mostrava nas horas de sono que, com prazer, dormia.
Sorte? Nunca teve. Se achava a mais azarada dos seres. Via na criação de Deus uma grande brincadeira de mau gosto: colocou-se tudo de esquisito, de rejeitável, de dúbio, de ruim e de razoável. Só queria mesmo era ganhar um bingo, ou mesmo um sorteio. Ou ter entrado na fila da beleza alguma vez….
A família era interessante. Cheia de padrões, de estigmas, de preconceitos.
E ela, fatalmente, não se encaixava. Não entendia a rejeição pelo Rock, pela noite, pelos chás, pela noite, pela sinuca. E a falta de aceitação a incomodava. E a consumia. E a tornava cada vez menor como aquela que ela se tornara.
Não a agradava ser tão forçosamente dependente de sua família, de ter tão pouca voz sobre as coisas que eram importantes pra ela – uma impotência sem fim – pensava…
Seu sonho era fazer o que o coração mandar e o que a vontade deixar, sem culpa.
Romance? Ah! Nada de romances pra esta mocinha. A sorte não batia no coração também. A tal “sorte no jogo, azar no amor” funcionava bastante. E com 25 anos ela sonhava já ter se resolvido. Quando criança jurava que já teria sua casa no campo e seu marido e seu filho. Ou mesmo estaria morando sozinha, com seus 8 gatos, como literalmente sonhou na infância.
Hoje, aos 25 anos ela só sonha com paz. Com independência. Com felicidade. Os sonhos se tornaram tão pequenos, tão simples. O que ela mais quer é o básico. É o essencial. O mínimo pra se viver.
Mas ainda se permite sonhar os sonhos não tão simples, mas aqueles que todos sonham também. Sonhos de amor, de segurança, de sucesso profissional. A rejeição da vida tinha um gosto amargo, mas a bondade de seu coração persistia em desejar tudo isso e mais um pouco.
E hoje, ao completar ¼ de século, a esperança bate a porta e se renova, para mais 25 anos que se seguem. E, como criança que um dia foi, não imagina o que pode vir, sequer imagina que podem vir mais 25 anos. E essa criança que ainda existe nela, só deseja o melhor e o pior. Deseja o ruim e o bom. Deseja 25 anos melhores vividos.

Post Scriptum: esse post é ligação direta com este: http://wp.me/p4oe1-G

O Dia Depois de Amanhã…

Alguns anos se passaram pra que eu pudesse ver algo de bom na velhice. Não que ganhar rugas, ficar fraca, baixar imunidade, visitar médicos com muito mais regularidade, ter memória enfraquecida e tantas outras coisas sejam verdadeiramente boas. Aliás, nunca vi nada de bom em envelhecer.

De uma hora pra outra ‘percebi’ que estou envelhecendo. Não falo de anos que passaram, mas da minha memória, que nunca foi muito boa e anda cada vez pior; falo da mega dificuldade em emagrecer fazendo as mesmas coisas que antigamente me garantiam resultados mais rápidos. Também não digo velhice quanto à idade mental ou coisa do tipo. Isso é questão de retardo, no melhor sentido da palavra.
E não, não sou velha. Mas a velhice chega. E quando chega, não tem como não perceber. Vejo nos olhos da minha avó, nas reações da minha mãe. O que é na aparência um incômodo, é na verdade a beleza de se viver e acolher dentro de si mesmo, tantos anos, tantas coisas ruins e boas e se tornar um ser humano admirável. Ou não. Mas não falo destes. Estes não admiráveis não aproveitaram seus anos pra fazerem algo de bom a ninguém além da própria sombra. E ser assim não quero. E nem quero ser presidente de nada ou alguém. Não quero ser modelo pra criança alguma. Quero só ter a certeza de que os anos passaram e eu os aproveitei pra colher todas as rugas, todos os fios de cabelo branco – precoces ou não – todos os não, todos os sim, todas as aprovações e reprovações.

A morte é certa, e lidar com ela é de um exercício pior que muitos dias de educação física no colégio. Mas a cada dia vejo a inevitabilidade de olhá-la nos olhos, enfrentar com a coragem que nos é devida. Mas sei que ela vem na hora certa. Não necessariamente na idade certa. Mas com essa velhice que adquiro a cada segundo compreendo que cada um vive o tanto que lhe é permitido viver. Não retiro daqui qualquer possibilidade de “mudança de rota”. Mas vivemos o que queremos. E somos o que vivemos.
E estou feliz. Porque percebi a beleza da dor nas costas; porque vista cansada é conseqüência de ótimos hábitos; porque falta de ar numa corrida de 500 metros pode ser um sinal pra parar ou mesmo pra começar a pensar em fazer caminhadas diárias.

À velhice toda reverência que merece. Toda atenção um dia dispersada; todos os meus dias por vir e os dias que foram: que eles formem de mim uma velha ‘caquética’, se preciso, mas com respeito à vida, aos momentos, às experiências vividas e as frustradas. Que eu olhe pra trás e curta as minúcias dos segundos que um dia me concederam cada cabelo branco, cada espinha de estresse, cada ruga ao redor dos olhos.
À velhice, tudo que hoje sou, pra amanhã ser isso tudo e mais um pouco. Todos os anos e muitos outros.


post scriptum: o título dele era este mesmo mas o que pensei originalmente e o que tinha ficado como link foi “Antes fosse Piratas do Caribe”. Juro que ri alto.

À Velhice…

Alguns anos se passaram pra que eu pudesse ver algo de bom na velhice. Não que ganhar rugas, ficar fraca, baixar imunidade, visitar médicos com muito mais regularidade, ter memória enfraquecida e tantas outras coisas sejam verdadeiramente boas. Aliás, nunca vi nada de bom em envelhecer.

De uma hora pra outra ‘percebi’ que estou envelhecendo. Não falo de anos que passaram, mas da minha memória, que nunca foi muito boa e anda cada vez pior; falo da mega dificuldade em emagrecer fazendo as mesmas coisas que antigamente me garantiam resultados mais rápidos. Também não digo velhice quanto à idade mental ou coisa do tipo. Isso é questão de retardo, no melhor sentido da palavra.
E não, não sou velha. Mas a velhice chega. E quando chega, não tem como não perceber. Vejo nos olhos da minha avó, nas reações da minha mãe. O que é na aparência um incômodo, é na verdade a beleza de se viver e acolher dentro de si mesmo, tantos anos, tantas coisas ruins e boas e se tornar um ser humano admirável. Ou não. Mas não falo destes. Estes não admiráveis não aproveitaram seus anos pra fazerem algo de bom a ninguém além da própria sombra. E ser assim não quero. E nem quero ser presidente de nada ou alguém. Não quero ser modelo pra criança alguma. Quero só ter a certeza de que os anos passaram e eu os aproveitei pra colher todas as rugas, todos os fios de cabelo branco – precoces ou não – todos os não, todos os sim, todas as aprovações e reprovações.

A morte é certa, e lidar com ela é de um exercício pior que muitos dias de educação física no colégio. Mas a cada dia vejo a inevitabilidade de olhá-la nos olhos, enfrentar com a coragem que nos é devida. Sei que ela vem na hora certa. Não necessariamente na idade certa, mas com essa velhice que adquiro a cada segundo compreendo que cada um vive o tanto que lhe é permitido viver. Não retiro daqui qualquer possibilidade de “mudança de rota”, so que vivemos o que queremos. E somos o que vivemos.
E estou feliz. Porque percebi a beleza da dor nas costas; porque vista cansada é conseqüência de ótimos hábitos; porque falta de ar numa corrida de 500 metros pode ser um sinal pra parar ou mesmo pra começar a pensar em fazer caminhadas diárias.

À velhice toda reverência que merece. Toda atenção um dia dispersada; todos os meus dias por vir e os dias que foram: que eles formem de mim uma velha ‘caquética’, se preciso, mas com respeito à vida, aos momentos, às experiências vividas e as frustradas. Que eu olhe pra trás e curta as minúcias dos segundos que um dia me concederam cada cabelo branco, cada espinha de estresse, cada ruga ao redor dos olhos.
À velhice, tudo que hoje sou, pra amanhã ser isso tudo e mais um pouco. Todos os anos e muitos outros.